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Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária

Euclides André Mance

Houve recentemente no Brasil um salto organizativo no campo da economia solidária, com o surgimento e fortalecimento de diversas redes e organizações atuando em âmbitos locais, regionais e nacional. Nos últimos dois anos, em nível nacional, tivemos a fundação da Rede Universitária de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares, a organização da Agência de Desenvolvimento Solidário da Central Única dos Trabalhadores e a adoção da estratégia de rede integrando empresas da Associação Nacional dos Trabalhadores de Empresas Autogeridas. Em junho de 2000, no Encontro Brasileiro de Cultura e Socioeconomia Solidárias, realizado no Rio de Janeiro, foi criada a Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária - objeto deste artigo. Em seguida lançaram-se as bases para a organização da Rede Global de Socioeconomia Solidária, no I Acampamento de Economia Solidária ocorrido no Rio Grande do Sul, com organizações de diversos países - rede essa que foi lançada no Fórum Social Mundial, com a participação de entidades, pessoas e organizações de 21 países. Por sua vez, o governo do Rio Grande do Sul adotou a estratégia de redes econômicas em projetos de desenvolvimento sustentável.

A Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária integra empreendimentos de produção, comercialização e serviços, organizações de consumidores e de desenvolvimento solidário, escolas de trabalhadores, núcleos de estudos ligados a universidades, outras redes afins e incubadoras de cooperativas visando operar um movimento complexo de realimentação e crescimento conjunto, auto-sustentável, antagônico ao capitalismo e que promova o bem viver de todos.

Os critérios básicos de participação nesta rede são os seguintes: não haver exploração do trabalho, opressão ou dominação nos empreendimentos; buscar preservar o equilíbrio dos ecossistemas (respeitando-se todavia a transição de empreendimentos que ainda não sejam ecologicamente sustentáveis); compartilhar significativas parcelas do excedente para a expansão da própria rede; autodeterminação dos fins e autogestão dos meios, em espírito de cooperação e colaboração.

Os seus objetivos básicos são: atender as demandas de consumo dos membros das redes, produzindo e comercializando bens e serviços com qualidade técnica, social e ecológica; produzir nas redes tudo o que seus membros ainda necessitem consumir do mercado capitalista: produtos finais, insumos, serviços, etc; corrigir fluxos de valores, evitando realimentar a produção capitalista, o que ocorre quando empreendimentos solidários compram bens e serviços de empresas capitalistas; gerar novos postos de trabalho e distribuir renda, com a criação de novos empreendimentos econômicos para satisfazer as demandas das próprias redes; remontar de maneira solidária e ecológica as cadeias produtivas, visando garantir as condições econômicas para o exercício das liberdades públicas e privadas eticamente exercidas.

Nesta ótica, cada ato de consumo, além de ser econômico, é também ético e político! Ao selecionarmos com autonomia os bens e serviços que consumimos, visamos: atender as necessidades e desejos peculiares ao nosso bem viver pessoal; promover o bem viver dos trabalhadores que elaboram e comercializam aquele produto ou serviço e manter o equilíbrio dos ecossistemas. Assim, com nosso ato de consumo solidário podemos contribuir para a construção de uma nova sociedade.

A idéia básica é a de que se consumimos bens e serviços das Redes Solidárias, seus empreendimentos vendem toda a produção e amplia-se o excedente para o reinvestimento coletivo na criação de outras empresas solidárias, gerando-se novos postos de trabalho com distribuição de renda bem como a produção de outros bens e serviços ainda não disponíveis nessas redes, aumentando-se a oferta de bens e serviços aos consumidores em diversidade e qualidade, sob um modelo autosustentável que preserva o equilíbrio dos ecossistemas. O reinvestimento coletivo dos excedentes permitirá reduzir progressivamente a jornada de trabalho de todos, elevar o tempo livre para o bem viver e elevar o padrão de consumo de cada pessoa.

Assim, pretende-se integrar consumo, comercialização, produção e crédito em um sistema harmônico e interdependente, coletiva e democraticamente planejado e gerido, que serve ao objetivo comum de responder às necessidades da reprodução sustentável do bem viver das pessoas em todas as suas dimensões, inclusive, nos âmbitos da cultura, arte e lazer.

A Rede dispõe de um sistema informatizado de busca por produtos e serviços solidários, transferência tecnológica e intercâmbios comunicativos em hhtp://www.redesolidaria.com.br .


Rede Brasileira de Socioeconomia Solidaria
Seminário do Pólo de Socieconomia Solidária
Paris, 27 de Março de 2001
www.milenio.com.br/mance/rbses1.htm


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