A Banalidade do Mal e a Responsabilidade Bolsonarista pelo Atual Genocídio no Brasil

Euclides Mance

19/05/2021

A expressão banalidade do mal foi usada por Hannah Arendt ao referir-se, em nível estritamente factual, à conduta do tenente-coronel nazista Adolf Eichmann, que colaborou no planejamento da deportação e transporte de judeus, comunistas, ciganos, eslavos e homossexuais, entre outros grupos, para campos de concentração e, por fim, na “solução final” do seu envio a campos de extermínio, para serem mortos em câmaras de gás.

Arendt tratou, conjuntamente, do conceito de genocídio e da extensão de sua aplicação a esses e a outros fatos, posto que os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas não eram apenas contra raças diferentes, mas também contra grupos específicos, como o dos doentes incuráveis”, que incluía mais de 200 mil alemães, entre os quais os considerados “geneticamente deteriorados (pacientes cardíacos e pulmonares)”[1], que foram igualmente mortos.

A atitude de Eichmann durante seu julgamento em Jerusalém, sua linguagem, clichês e argumentos, o caracterizavam como um cidadão comum, um funcionário dedicado que, buscando ascender em sua carreira, teria se limitado a cumprir ordens, não se sentindo responsável pelas consequências do que ele próprio implementara com suas ações, pois não teria infringido lei alguma na realização de seu trabalho e, pessoalmente, nunca teria maltratado ou matado algum judeu. [2]

Em certo sentido, a banalidade do mal, que permeia a atitude de Eichmann com respeito às consequências de seus atos, é, em sua generalidade, latente nas sociedades massificadas, em que surge uma multidão de seres vazios de pensamento, marcados pela superficialidade e irreflexão, que se portam como incapazes de realizar julgamentos morais sobre as consequências de suas próprias condutas, limitando-se a cumprir ordens ou a seguir referências que eles aceitam sem qualquer questionamento.

Desdobrando esse argumento e a aplicação desses conceitos, pode-se afirmar que a banalidade do mal está latente no bolsonarismo e que ela se manifesta especialmente na atitude dos bolsonaristas em negar o genocídio do qual são cúmplices, agindo como se fossem zelosos defensores da liberdade e da moral, seguindo as orientações de seu líder maior. A banalidade do mal se revela cristalina na frase do, então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello:Senhores, é simples assim: um manda e o outro obedece!”[3].

Dividindo o mundo entre “nós (os bolsonaristas)” e “eles (os esquerdistas, corruptos, comunistas, etc.), os bolsonaristas não problematizam as orientações recebidas de seus líderes políticos ou religiosos e negam a validade de qualquer informação, advinda de fontes estranhas ao seu mundo, que contradiga às suas convicções. Numa entrevista à Rádio Guaíba, por exemplo, em abril de 2020, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou: “A verdade está aparecendo aí: a hidroxicloroquina funciona, essa quarentena foi precipitada, não tá aparecendo a pilha de mortos que tinham falado que iria aparecer”. [4]

Engajados em sua guerra contra os supostos inimigos do Brasil, de Deus e da família, os seguidores e comandados nas fileiras bolsonaristas, justamente por que negam “outros”, tidos como seus inimigos, reafirmam as suas convicções grupais de pertencimento ao “nós” de seus coletivos, de suas redes e comunidades, que gravitam em torno de seu líder e da identidade opositora e negadora que ele representa. Rejeitando a sensatez e a razão alheias, mergulham em convicções emocionalmente empoderadas, cultivadas e retroalimentadas nessas redes sociais de comunicação e de ação [5]. Embora se considerem os salvadores do país e a reserva moral da pátria, embora imaginem combater a corrupção e defender as liberdades individuais e o mercado contra o comunismo e o Estado, cabe reafirmar que sua participação no genocídio em curso em nosso país necessita ser investigada, apurada e punida no rigor da lei. Pois não poderão eximir-se de suas responsabilidades ao invocar, em sua defesa, a pseudoignorância do resultado de suas ações ou o mero cumprimento de ordens ou diretivas de seus líderes políticos e religiosos.

E para que não restem dúvidas a nenhum bolsonarista sobre a extensão do genocídio a que eles conduziram o Brasil, pode-se usar a sua linguagem e a escala de Weintraub para, absurdamente, abordar o crescimento da “pilha de mortos” ao longo da pandemia, tomando por referência o comprimento de dois metros de uma urna mortuária padrão, verticalmente disposta e justaposta às demais – o que, considerando os 430 mil óbitos de Covid-19 ocorridos no Brasil até aqui, resulta numa altura de 860 km. E para que se tenha uma noção concreta do que significa essa altura abstrata, analisaremos a sua proporção em relação à altura da atmosfera de nosso planeta.

A figura abaixo mostra as diferentes faixas da atmosfera terrestre. Para além dela está o espaço exterior. Destacaremos cinco momentos na evolução dessa tragédia brasileira, repleta de dor, angústia e sofrimento, considerando o número totalizado de mortos pela Covid-19 alcançado no país ao longo da pandemia [6] e a que altura chegaria a correspondente “pilha de mortos” que Bolsonaro e seus cúmplices ajudaram a produzir, na emissão ou cumprimento de ordens, protocolos e orientações recebidas, na mais plena expressão da “banalidade do mal”.

Fonte: Mundo Educação [7]

No dia 5 de maio de 2020, o Brasil ultrapassou a marca 7.500 mortes acumuladas por Covid-19, o que corresponde a uma altura de 15 km de urnas mortuárias sobrepostas, distância que alcança o limite da troposfera. É nessa faixa da atmosfera em que voam os aviões.

Em 27 de maio de 2020, o país ultrapassou a 25 mil mortes acumuladas, o que corresponde a 50 km de urnas mortuárias sobrepostas, altura que alcança o limite da estratosfera, onde estão os balões meteorológicos.

No dia 11 de junho de 2020, o número totalizado de mortos por Covid-19 em nosso país chegou a 40 mil, o que corresponde a 80 km de urnas mortuárias sobrepostas, altura que atinge o limite da mesosfera. Nessa faixa da atmosfera os meteoros que impactariam a Terra tornam-se incandescentes, visíveis como estrelas cadentes, e vão perdendo massa até se desintegrarem completamente ou converterem-se em meteoritos.

No dia 25 de fevereiro de 2021 o Brasil alcançou a marca de 250 mil mortos, o que corresponde a uma altura de 500 km de urnas mortuárias sobrepostas, distância que alcança a faixa da termosfera. É nessa faixa da atmosfera que se encontra a Estação Espacial Internacional, posicionada a uma altura de aproximadamente 410 km.

Por fim, no dia 29 de abril de 2021, chegamos a 400 mil vidas perdidas para a Covid-19, o que corresponde a uma altura de 800 km de urnas mortuárias sobrepostas. Ou, no linguajar de Weintraub, a 800 km de altura na “pilha de mortos” que o presidente da República e seus seguidores ajudaram a produzir. Essa altura corresponde aproximadamente ao limite da exosfera, faixa onde orbitam os satélites artificiais de nosso planeta, como o telescópio Hubble, posicionado a 600 km de distância em relação à superfície da Terra, sendo essa a camada de transição ao espaço exterior.

E nos dias seguintes, semanas seguintes e meses seguintes a essa data, essa “pilha de mortos” – resultante, em grande parte, de ações negacionistas de Bolsonaro e de seus seguidores, com a ampla conivência das elites brasileiras e de autoridades públicas que democraticamente poderiam tê-lo contido para evitar essa tragédia anunciada – atingiu a uma altura, cuja distância, ultrapassando completamente a atmosfera de nosso planeta, distende-se pelo espaço exterior.

Para os que afirmam que não é a quantidade de mortos o que define o correto emprego do termo genocídio mas o propósito da ação que a ela conduz, cabe lembrar que a solução final adotada por Bolsonaro para alcançar a imunidade de rebanho, era permitir o contágio massivo de 70% da população brasileira, realizando-se para tanto o “isolamento vertical” – em que os idosos e pessoas que estariam no “grupo de risco” ficariam em casa e os demais deveriam circular normalmente, expondo-se ao contágio do coronavírus no exercício quotidiano de suas atividades. Negando e combatendo as providências adotadas por governadores e prefeitos que buscavam conter a propagação do vírus, o presidente afirmou: “O governo federal, se depender de nós, está tudo aberto com isolamento vertical e ponto final.” [8]

Desconsiderando a distinção entre hipóteses científicas e teses cientificamente comprovadas – requerendo estas um amplo consenso, validamente alcançado, no seio da comunidade científica mediante a verificação ou o falseamento das hipóteses investigadas, com o emprego dos métodos, instrumentos e procedimentos adequados a cada ciência –, o bolsonarismo reproduziu argumentos hipotéticos de epidemiologistas divergentes da comunidade científica, como se verdades científicas fossem, levando milhares de pessoas à morte no Brasil. Segundo a hipótese formulada por eles, a Covid-19 não seria “[…] tão devastadora para a população em geral e, por isso, seria possível contê-la sem enfrentar as massivas perdas econômicas que o atual modelo de contenção pode causar.”[9] E, como noticiou a BBC em março de 2020, essa estratégia de isolamento vertical “[…] ganhou ao menos dois proeminentes adeptos […]: o presidente americano, Donald Trump, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.” [10] Ela também foi adotada inicialmente no Reino Unido por Boris Johnson. [11]

Em 9 de abril de 2020, quando ainda não havia mil mortos no país em razão do coronavírus, alertei que poderíamos chegar de 1,5 a 1,7 milhão de óbitos por Covid-19 – número superior ao estimado por pesquisadores do Imperial College London [12] –, se a política de imunização de rebanho por contágio do vírus, iniciada no período da gestão do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, fosse levada adiante e o coronavírus se propagasse pelo conjunto da população brasileira. [13]

Segundo Mandetta, em sua entrevista coletiva de 22 de março de 2020, metade da população brasileira seria infectada pelo coronavírus: “da metade que vai entrar em contato [com o vírus] mais da metade não vai nem ter sintoma, vai simplesmente desenvolver o anticorpo […]. E a grande maioria dos que vão ter sintomas, terão sintomas leves. E, depois, uma minoria vai necessitar de internação hospitalar. Se ocorresse ao longo do ano, seria uma gripe forte e uma epidemia para idosos.”[14] Tratando a Covid-19 como uma gripe forte para a maioria, o ministro da Saúde afirmou, em 16 de abril, nas palavras da imprensa, que “[…] quando cerca de metade da população for infectada pelo novo coronavírus, as ações do governo mudarão.”[15] Assim, não apenas a infecção de metade da população era esperada no plano de atuação do governo federal, mas já se previam mudanças para a ação governamental após essa marca ser alcançada.

À época, Paulo Guedes falava inclusive da emissão de um “Passaporte de Imunidade” para os que, após contraírem a doença, testassem positivo para os anticorpos do coronavírus: “Você fez o teste, você está positivo, você pode circular. Você está negativo, você tem que ir para casa. […] Veja bem, isso não é agora. Agora, a gente está em isolamento. É para a gente sair lá na frente, do período de isolamento”. [16]

Ora, como alguém poderia testar positivo para anticorpos do coronavírus sem ter sido vacinado, posto que nesse momento nem vacinas aprovadas para utilização pública existiam? Somente sendo infectado pelo próprio vírus. E esse era o objetivo do “isolamento vertical”, que manteria a economia funcionando normalmente.

Mas, em seu argumento, Paulo Guedes pareceu desconsiderar um subgrupo que testaria positivo para os anticorpos do coronavírus e que alcançaria pouco menos de 1% do total dos infectados, conforme os estudos então existentes: o grupo das pessoas que não sobreviveria à doença. Nesse caso, objetivamente, em vez delas receberem um “Passaporte de Imunidade”, seria entregue a seus familiares um “Atestado de Óbito”. E, quando metade da população brasileira testasse positivo para os anticorpos do coronavírus, por haver sido infectado por ele, teríamos aproximadamente 1 milhão de mortes por Covid-19 no Brasil.

Um ano se passou e, como consequência dessa política premeditada de alcançar o mais rapidamente possível a imunidade de rebanho”, o país totalizará oficialmente, ao final das próximas seis ou sete semanas, mais de meio milhão de mortes registradas por Covid-19 ao longo da pandemia e chegaremos, aproximadamente, a um terço do número total de óbitos que estimei como resultado previsto dessa política desastrosa.

A maior parte dos esforços feitos, até aqui, para evitar essa tragédia anunciada, foi duramente combatida por Bolsonaro ou por seus seguidores negacionistas: 1) impedindo que governadores fizessem o bloqueio sanitário no interior dos aeroportos; 2) vetando o uso obrigatório de máscaras em locais públicos; 3) não realizando testagens massivas que ajudariam a conter a propagação do vírus; 4) ocasionando e promovendo aglomerações que facilitaram a propagação da pandemia; 5) incentivando a invasão de hospitais de campanha para denunciar que estariam subocupados; 6) alimentando a hostilização de profissionais de saúde que reivindicavam equipamentos e condições de segurança satisfatórias para realizar seu trabalho e atender adequadamente os pacientes; 7) combatendo abertamente o lockdown e medidas de isolamento social; 8) recusando ofertas antecipadas de milhões de doses de vacinas; 9) insultando, por várias vezes e pelas vozes de diferentes autoridades públicas, o país que exporta as matérias-primas de que necessitamos para produzir vacinas em solo nacional, chegando Paulo Guedes a afirmar que “os chineses inventaram o vírus”; 10) retardando a entrada do Brasil na aliança global de vacinas Covax Facilty e, ao nela ingressar, optando pela cobertura mínima de apenas 10% da população em vez de optar pelo recebimento de doses de vacina para 50% da população; 11) votando na OMC contra a suspensão de patentes das vacinas para o Coronavírus, o que permitiria barateá-las ao ampliar rapidamente a sua produção global e o volume de doses disponíveis no mundo todo; 12) induzindo as pessoas, por meio de “lives” e de redes sociais, a adotarem comportamentos que contribuíram para elevar o número de mortes por Covid-19 no país; 13) incentivando e criando protocolos ou orientações para o uso de medicamentos sem recomendação científica na prevenção ou no tratamento da Covid-19, tais como hidroxicloroquina e ivermectina, entre outros; 14) importando insumos para a fabricação pelo Exército de milhões de comprimidos de cloroquina, que não apenas são ineficazes para o tratamento da Covid-19 como ampliam o risco de óbito por infarto das pessoas que contraiam essa doença.

Por todas essas ações e pelas consequências delas derivadas, que resultaram na morte de centenas de milhares de pessoas – mortes que poderiam ter sido evitadas –, a palavra genocídio, em sentido lato de genus, que corresponde a povo, e de cídio que corresponde a morte, poderia ser bem aplicada aqui, tratando-se do genocídio de uma parcela do povo brasileiro. Em seu negacionismo, o presidente afirmou que o coronavírus, como uma chuva, molharia 70% do povo brasileiro, mas que apenas idosos e pessoas de grupos de risco teriam problemas mais sérios: “Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. Toda a nação vai ficar livre da pandemia quando 70% for infectada e conseguir os anticorpos.” [17] Em outra ocasião reafirmou: “70% (da população) vai pegar o vírus, não tem como”.[18] Mas para evitar o colapso do sistema de saúde, o ritmo de infecção do povo deveria ser mais lento: “Em vez de uma parte da população ser infectada num período de dois, três meses, que seja entre seis, sete, oito meses” [19]. E, em 2 de junho de 2020, sentenciou claramente: “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo[…]. O vírus é uma coisa que vai pegar em todo mundo”[20].

Assim, pode-se afirmar que a adoção de medidas preconizadas por Bolsonaro para o maior desembaraço possível à livre propagação nacional do coronavírus, com o objetivo de gerar rapidamente a imunidade de rebanho no país pela infecção de 70% da população e, com isso, evitar o agravamento da crise econômica, não importando o número de mortes por Covid-19 que tais medidas provocariam, caracteriza claramente um crime hediondo, pois resultou de fato na morte de centenas de milhares de pessoas – mortes que poderiam ter sido evitadas, se medidas de prevenção do contágio tivessem sido adotadas nacionalmene de maneira coordenada.

E, pela proporção massiva de óbitos de brasileiros e brasileiras que foram impactados por tais medidas premeditadas, que assumiam como certo que o coronavírus iria “pegar em todo mundo, pode-se afirmar que se trata mesmo de um tipo particular de genocídio, em que “todo mundo” acabaria exposto à infecção pelo vírus, sabendo-se de antemão que uma parte das pessoas infectadascomposta por doentes crônicos, com deficiência cardíaca e pulmonar, ou por membros de grupos étnicos e sociais mais vulneráveis ao vírus, como indígenas ou populações pobres que vivem em condições insalubres e precárias – necessariamente morreria.

Mas essa “pilha de mortos” – que, em sua extensão, ultrapassou o equivalente à altura da exosfera de nosso planeta e alcançou o espaço exterior – não pode ser tratada como algo banal pela Justiça do Brasil e pelas Cortes Internacionais. Bolsonaro e seus cúmplices, em suas cadeias de comando, têm de ser julgados pelos crimes que tenham cometido com respeito aos fatos aqui narrados.

Estudos científicos apontavam esses possíveis impactos desde o início da pandemia. E tanto o presidente quanto os seus comandados e seguidores sabiam, que de suas ações e omissões, essa tragédia de centenas de milhares de mortos poderia resultar. O estudo, já mencionado anteriormente, de uma equipe de pesquisadores do Imperial College London, por exemplo, indicou que com a adoção de medidas adequadas, envolvendo o conjunto da população, para conter e suprimir a propagação do coronavírus no país, o número de mortos no Brasil por Covid-19 chegaria aproximadamente a 44 mil e que, sem nenhuma estratégia de isolamento e de enfrentamento da propagação do coronavírus, deixando-o circular livremente, esse número poderia alcançar a marca de 1.152.283 óbitos. [21] Após a publicação de outro estudo similar, mostrando que até 250 mil pessoas poderiam morrer de Covid-19 no Reino Unido, “a estratégia do governo britânico mudou, abandonando a imunização de rebanho’ ”. [22]. Esses estudos, entretanto, bem acolhidos pela maioria da comunidade científica, foram ideologicamente combatidos no Brasil na realimentação negacionista do bolsonarismo.

Posiciono-me, pois, entre aqueles e aquelas que clamam por justiça para seus familiares e amigos, cujas vidas foram perdidas para a Covid-19, em situações fortemente agravadas pelas políticas, ações e omissões do governo federal brasileiro e pelo vazio de pensamento, superficialidade, irreflexão e insensatez dos apoiadores e seguidores dessas medidas, aglutinados em torno de seu líder negacionista maior, Jair Messias Bolsonaro.

Notas

1 Abordando as noções de genocídio e massacre administrativo, afirma Arendt (2006, p.232): “For the concept of genocide, introduced explicitly to cover a crime unknown before, although applicable up to a point is not fully adequate, for the simple reason that massacres of whole peoples are not unprecedented. They were the order of the day in antiquity, and the centuries of colonization and imperialism provide plenty of examples of more or less successful attempts of that sort. The expression ‘administrative massacres’ seems better to fill the bill. […] The phrase has the virtue of dispelling the prejudice that such monstrous acts can be committed only against a foreign nation or a different race. There is the well-known fact that Hitler began his mass murders by granting ‘mercy deaths’ to the ‘incurably ill’, and that he intended to wind up his extermination program by doing away with ‘genetically damaged’ Germans (heart and lung patients). But quite aside from that, it is apparent that this sort of killing can be directed against any given group, that is, that the principle of selection is dependent only upon circumstantial factors.”

2 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Sobre o emprego da expressão banalidade do mal, assim afirma Arendt: “when I speak of the banality of evil, I do so only on the strictly factual level, pointing to a phenomenon which stared one in the face at the trial.” (ARENDT, 2006, p.231) E sobre a atitude de Eichmann, mantida inclusive ante a sua própria execução, posto que fora condenado à forca, Arendt destaca: “That such remoteness from reality and such thoughtlessness can wreak more havoc than all the evil instincts taken together which, perhaps, are inherent in man – that was, in fact, the lesson one could learn in Jerusalem. But it was a lesson, neither an explanation of the phenomenon nor a theory about it”. (ARENDT, 2006, p.232)

3 STRUCK, Jean-Philip. Caos, omissão e explosão de mortes: o legado de Pazuello na Saúde. 16.03.2021. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/caos-omissão-e-explosão-de-mortes-o-legado-de-pazuello-na-saúde/a-56890646. Acesso em: 15/05/2021

4 UOL. Weintraub nega ser racista e minimiza quantidade de mortos por coronavírus. 16/04/2020. Disponível em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/16/weintraub-nega-ser-racista-e-minimiza-quantidade-de-mortos-por-coronavirus.htm. Acesso em: 15/05/2021

5 Referindo-se à incapacidade de Eichemann de pensar a partir dos outros, Arendt afirma: “The longer one listened to him, the more obvious it became that his inability to speak was closely connected with an inability to think, namely, to think from the standpoint of somebody else. No communication was possible with him, not because he lied but because he was surrounded by the most reliable of all safeguards against the words and the presence of others, and hence against reality as such.” (ARENDT, 2006, p. 55)

6 A fonte de dados é: Our World in Data. Coronavirus (COVID-19) Deaths. Disponível em: https://ourworldindata.org/covid-deaths. Acesso em: 15/05/2021

7 PENA, Rodolfo F. Alves. Camadas da Atmosfera. Disponível em https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/camadas-atmosfera.htm. Acesso em: 15/05/2021

FERNANDES, Augusto. Bolsonaro defende isolamento vertical e diz que quer “abrir tudo”. 14/05/2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/14/interna_politica,854859/bolsonaro-defende-isolamento-vertical-e-diz-que-quer-abrir-tudo.shtml. Acesso em: 16/05/2021

9 SANCHES, Mariana. O que é o isolamento vertical que Bolsonaro quer e por que especialistas temem que cause mais mortes? 25 mar 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52043112. Acesso em: 16/05/2021

10 SANCHES (2020, n.p.)

11 OSWALD, Vivian. Cientistas criticam Boris Johnson por estratégia contra coronavírus que evita quarentena e não restringe aglomerações. 15/03/2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/cientistas-criticam-boris-johnson-por-estrategia-contra-coronavirus-que-evita-quarentena-nao-restringe-aglomeracoes-24306531. Acesso em: 16/05/2021

12 MANCE, Euclides. Coronavírus: o Brasil avança para uma tragédia ainda maior. 09/04/2020. Disponível em: http://euclidesmance.net/wp/index.php/2020/04/09/coronavirus-o-brasil-avanca-para-uma-tragedia-ainda-maior/ Acesso em 15/05/2021

13 RODRIGUES, Eduardo. Mandetta: quando chegar em 50% das pessoas infectadas ritmo vai diminuir. UOL, 22/03/2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/03/22/mandetta-quando-chegar-em-50-das-pessoas-infectadas-ritmo-vai-diminuir.htm> Acesso em: 26/03/2020

14 RECORD NEWS. Metade da população será contaminada pelo novo coronavírus, diz Mandetta. 22/03/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=U_wEJKX2lWg. Acesso em: 18/05/2021

15 AGOSTINE, Cristiane; VIEIRA, André Guilher. Mandetta: Temos perspectiva de troca; hoje, o mais tardar amanhã. 16/04/2020. Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/04/16/mandetta-temos-perspectiva-de-troca-hoje-o-mais-tardar-amanha.ghtml. Acesso em:18/05/2021

16 ESTADÃO CONTEÚDO. Guedes sugere “passaporte de imunidade” para reabertura econômica – Segundo ministro, pessoas que tenham a imunidade ao novo coronavírus confirmada poderiam trabalhar normalmente numa segunda fase da pandemia. 04/04/2020. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/economia/guedes-sugere-passaporte-de-imunidade-para-reabertura-economica/ Acesso em: 15/05/2021

17 ANDRADE, Hanrrikson de. Bolsonaro compara coronavírus a chuva: “Vai molhar 70% de vocês”. 03/04/2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/03/bolsonaro-compara-coronavirus-chuva.htm. Acesso em: 15/05/2021

18 ESTEVES, Eduarda. Veja cem momentos em que Jair Bolsonaro minimizou a Covid-19. 08/08/2020. Disponível em: https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2020-08-08/veja-cem-momentos-em-que-jair-bolsonaro-minimizou-a-covid-19.html. Acesso em: 15/05/2021

19ESTEVES, 2020, n.p.

20G1. ‘É o destino de todo mundo’, afirma Bolsonaro após lamentar mortes por coronavírus.02/06/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/02/e-o-destino-de-todo-mundo-afirma-bolsonaro-apos-lamentar-mortes-por-coronavirus.ghtml. Acesso em: 18/05/2021

21 WALKER, Patrick; WHITTAKER, Charles; WATSONET, Oliver et al. Datos suplementarios. In: The Global Impact of COVID-19 and Strategies for Mitigation and Suppression. Imperial College London (2020). Disponível em: https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-Global-unmitigated-mitigated-suppression-scenarios.xlsx. Acesso em: 16/05/2021

22 G1. Sem isolamento e ações contra a Covid-19, Brasil pode ter até 1 milhão de mortes na pandemia, diz estudo. 27/03/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/27/sem-isolamento-e-acoes-contra-a-covid-19-brasil-pode-ter-ate-1-milhao-de-mortes-na-pandemia-diz-estudo.ghtml. Acesso em 18/05/2021

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OSWALD, Vivian. Cientistas criticam Boris Johnson por estratégia contra coronavírus que evita quarentena e não restringe aglomerações. 15/03/2020 . Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/cientistas-criticam-boris-johnson-por-estrategia-contra-coronavirus-que-evita-quarentena-nao-restringe-aglomeracoes-24306531. Acesso em: 16/05/2021

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PENA, Rodolfo F. Alves. Camadas da Atmosfera. Disponível em https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/camadas-atmosfera.htm. Acesso em: 15/05/2021

RECORD NEWS. Metade da população será contaminada pelo novo coronavírus, diz Mandetta. 22/03/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=U_wEJKX2lWg. Acesso em: 18/05/2021

RODRIGUES, Eduardo. Mandetta: quando chegar em 50% das pessoas infectadas ritmo vai diminuir. UOL, 22/03/2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/03/22/mandetta-quando-chegar-em-50-das-pessoas-infectadas-ritmo-vai-diminuir.htm> Acesso em: 26/03/2020

SANCHES, Mariana. O que é o isolamento vertical que Bolsonaro quer e por que especialistas temem que cause mais mortes? 25 mar 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52043112. Acesso em: 16/05/2021

STRUCK, Jean-Philip. Caos, omissão e explosão de mortes: o legado de Pazuello na Saúde. [16.03.2021]. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/caos-omissão-e-explosão-de-mortes-o-legado-de-pazuello-na-saúde/a-56890646. Acesso em: 15/05/2021

UOL. Weintraub nega ser racista e minimiza quantidade de mortos por coronavírus. [16/04/2020] Disponivel em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/16/weintraub-nega-ser-racista-e-minimiza-quantidade-de-mortos-por-coronavirus.htm. Acesso em: 15/05/2021

WALKER, Patrick; WHITTAKER, Charles; WATSONET, Oliver et al. Datos suplementarios. In: The Global Impact of COVID-19 and Strategies for Mitigation and Suppression. Imperial College London (2020). Disponível em: https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-Global-unmitigated-mitigated-suppression-scenarios.xlsx. Acesso em: 16/05/2021

“Variante B17” do Coronavírus contribuiu para 257.101 mortes no Brasil até agora.

Euclides Mance
03/abril/2021

Comparando o número de óbitos por Covid-19 no Brasil e no restante do mundo temos o seguinte.

No Brasil há 211.049.527 habitantes e já morreram 328.206 pessoas por Covid-19. Dividindo o número dos que morreram pelo número de habitantes, a taxa é de 0,0015551136. No restante do mundo há 7.462.484.447 habitantes e já morreram 2.514.182 pessoas por Covid-19, resultando numa taxa de 0,000336909. A fonte de dados populacionais utilizada é o Banco Mundial (worldbank.org) e a de óbitos é a Universidade Johns Hopkins (coronavirus.jhu.edu).

Com base nesses dados, se no Brasil o número de mortes por Covid-19 fosse similar à média do restante do mundo, teriam morrido até agora 71.104 pessoas. Basta multiplicar o número de habitantes do país pela taxa de mortalidade do resto mundo. O número de mortes que poderiam ter sido evitadas no Brasil até aqui é 257.101.

Diante disso, cabe perguntar: por que no Brasil morrem muito mais pessoas proporcionalmente de Covid-19 que no resto mundo em seu conjunto? Por que milhares de mortes causadas por essa doença, que poderiam ser evitadas, estão ocorrendo em nosso país?

Uma parte da resposta pode estar na propagação desenfreada do que se pode chamar figuradamente de “variante B17” do Coronavírus  numa parcela da população brasileira,

Essa “variante” se desenvolveu no Brasil logo no início da pandemia. Como se sabe, um vírus se propaga e se fortalece ao contornar os mecanismos de defesa do organismo. Uma pandemia afeta a sociedade como um todo, pois esta é um organismo social. Ocorre que a “variante B17” do Coronavírus atua justamente nisso, enfraquecendo a contenção do contágio da doença no organismo social.

Trata-se de uma “variante” cultural que altera a capacidade cognitiva e afetiva das pessoas contaminadas por ela. Cognitivamente as pessoas perdem a noção da realidade, estando seguras de que estão protegidas porque tomam medicamentos para vermes e para malária. E afetivamente elas têm surtos de autoestima narcísica, crendo-se muito inteligentes, e surtos de raiva e ódio, perdendo a empatia ante o sofrimento alheio. A junção desses dois fatores impacta fortemente na ação que elas adotam, o que acaba resultando na própria morte delas mesmas por Covid-19 ou de outras pessoas contaminadas por elas.

Essa “variante B17”, responsável por grande parte das 257.101 mortes a mais no Brasil na atual pandemia em comparação proporcional ao restante do mundo, atua contra o sistema de defesa do organismo social, particularmente em seis frentes: 1) conter a entrada do vírus no país: impediu que governadores fizessem o controle sanitário no interior dos aeroportos para bloquear o contágio; 2) uso de máscaras: vetou o uso obrigatório de máscaras em locais públicos; 3) distanciamento social: ocasiona aglomerações e é contra medidas que as evitem; 4) lockdown: toma diferentes medidas para que ele não ocorra nacionalmente e o combate localmente, sem reconhecer que o lockdown foi adotado nos principais países de grande porte que conseguiram conter a propagação da pandemia; 5) vacinas: recusou em 2020 a oferta de milhões de doses de vacinas feita ao Brasil, que ficou agora sem imunizante disponível para vacinar toda a população até julho de 2021; 6) educação e informação: por meio de “lives”, a “variante B17” do Coronavírus induz as pessoas por ela infectadas a adotarem comportamentos que contribuem para elevar a mortalidade por Covid-19 no país.

Enquanto a propagação dessa “variante B17” do Coronavírus não for contida e milhões de pessoas acreditarem que, por tomar vermífugos e remédio para malária regularmente, não precisam usar máscaras, podem aglomerar-se em festas clandestinas e  “manter tudo aberto para não quebrar a economia”, o número de mortes por Covid-19 continuará sendo muito maior no Brasil em proporção ao restante do mundo.

O alerta é claro: as ações induzidas no organismo social pela “variante B17” do Coronavírus  – isto é, pelo presidente Bolsonaro – são letais: repitamos, elas matam!

Aonde nos levará essa loucura?

Euclides Mance
25/03/2021

Quando os portugueses aportaram nestas terras, enxergaram um mundo de oportunidades para enriquecer. Movidos pela sede de fortuna, passaram a pilhar o que de valioso encontravam. Pessoas que aqui viviam, em suas comunidades milenares, foram escravizadas e mortas, subjugadas para propósitos econômicos e sexuais – sendo tratadas como coisas, usadas e descartadas, pois não teriam alma.

Nascia, desse modo, o Brasil, um país dividido entre os que mandavam e os que obedeciam. Entre aqueles que tinham o poder sobre a vida e a morte dos demais. E aqueles que, para sobreviver, tinham de submeter-se à dominação e trabalhar como escravos ou resistir e enfrentar a opressão, defendendo a sua dignidade, a sua liberdade, sua honra e cultura, até a morte se preciso fosse.

A resistência indígena tornou inviável a escravidão dos povos que aqui viviam, impossibilitando a exploração econômica de seu trabalho. E os portugueses tiveram de buscar escravos em outras terras, que depois foram substituídos por trabalhadores assalariados vindos de qualquer parte.

Aos membros dessa elite, sempre colonial, importava enriquecer e ir embora daqui. Sonhavam em voltar patacudos para a Europa e desfrutar do patrimônio que haviam acumulado às custas do sangue, da vida e da exploração do trabalho alheio.

Tal cultura de saqueio, dominação e de indiferença à morte de milhões de indígenas e negros, de seus filhos e mestiços, permaneceu no Brasil ao longo de sua história. A elite que a reproduz, nos dias atuais, também espera enriquecer com a exploração do trabalho alheio e a pilhagem da coisa pública, para depois gozar a vida na Europa ou nos Estados Unidos. Ou, ao menos, desfrutar anualmente de algumas semanas ou meses por lá. Para ela, é inaceitável que os filhos da classe trabalhadora ingressem nas universidades; que pessoas humildes tenham direito a melhores salários e que lhes seja possível viajar de avião pelo país.

Mas a transparência completa dessa cultura abominável, agasalhada por expressiva parte da classe dominante brasileira, revela-se cristalina na situação atual que o país atravessa. Para essa pequena parcela abastada da sociedade, pouco importa quantos brasileiros morrerão infectados pelo coronavírus. Por isso, desde o início da pandemia, ela nada fez para frear ou conter amplamente a propagação desse vírus. Preocupou-se, tão somente, em assegurar que houvesse vagas de UTI disponíveis para os membros da própria elite, para atendê-los em caso de necessidade.

Assim, criou-se um sistema para permitir a propagação do vírus, contabilizando-se as vagas disponíveis de UTI. Havendo vagas que permitam atender os membros da elite, defende-se que tudo esteja aberto, pouco importando que a transmissão do vírus se amplie e os mais pobres morram de Covid-19 – afinal, os membros da elite, sempre isolados do povo, dificilmente contrairiam a doença, imaginavam. Por outra parte, não havendo tais vagas disponíveis, eles concordam em fechar o que for necessário, para não ficarem desatendidos de uma UTI, em caso de serem acometidos por apendicite, infarto, AVC etc.

No início dessa pandemia, estudos científicos publicados pelo Imperial College London, projetavam que poderia haver 1,1 milhão de mortes no Brasil por Covid-19. Refazendo essas projeções, em abril de 2020, com base em declarações do Ministério da Saúde e em detalhes das condições de habitação e saneamento no país, concluímos que poderia haver entre 1,5 a 1,7 milhão de mortos, se medidas de prevenção do contágio não fossem amplamente tomadas. [1].

Mas, infelizmente, a morte prevista de centenas de milhares de pessoas, que poderia ser evitada com medidas corretas para reduzir o contágio, não teve a menor importância para as elites que governam o Brasil: –“Fazer o quê?” “Esse vírus é igual a uma chuva, vai molhar 70% de vocês”, disse o presidente sociopata, em abril de 2020.

Mas aonde nos levará essa loucura? O atual ministro da Saúde afirmou que garantirá a vacinação de um milhão de pessoas por dia [2].  Supondo que haja vacinas para isso, seriam necessários 100 dias para vacinar 100 milhões de brasileiros – pouco menos da metade da população. Mas, se as mortes provocadas pelo Coronavírus permanecerem em duas mil ao dia, nos próximos 100 dias teremos 200 mil mortes, que somados às 300 mil já ocorridas, resultarão em meio milhão de vidas perdidas. Porém, se todas as vagas de hospitais estiverem ocupadas, no atendimento dos pacientes de Covid-19, também morrerão muitos dos que precisarem de assistência médica em consequência de acidentes de trânsito, infartos, AVC etc.

Os empresários em geral e os banqueiros em particular já se deram conta de que a própria vida deles está em risco. Mas uma parte dos políticos do Congresso Nacional ainda não. Em mais três meses, entre os mortos dessa doença, estarão, com certeza, não apenas os filhos da classe trabalhadora, obrigados a sair de casa para garantir o alimento da sua família, mas também esposas, filhos, mães ou outros parentes dos próprios deputados e senadores que representam os interesses das elites desse país e que sustentam, até agora, o seu Governo genocida. Por serem base de apoio desse Governo, eles são igualmente responsáveis pelas milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

É possível que quando o número absurdo de mortes ultrapasse a 400 mil, em mais seis ou sete semanas, a manter-se o patamar atual de mortes diárias, Bolsonaro já não seja o presidente do Brasil. Mas poderá ter sido tarde demais, para mudar o desfecho dessa tragédia, anunciada desde março de 2020.

As UTI’s da Casa Grande e o Genocídio na Senzala

Euclides Mance
7 de Jul de 2020

Enquanto avança o genocídio na senzala, a casa grande vai “passando a boiada”, mantendo o ritmo das mortes em nível adequado para que existam UTI’s disponíveis, em caso de que seus membros necessitem de algumas delas

Fonte da Imagem: Observatório da Crise

De cada cem pessoas infectadas pelo novo coronavírus, ao menos uma delas morrerá. O grande temor da Casa Grande brasileira, dos que vivem no andar de cima da injusta apropriação da riqueza socialmente produzida em nosso país, não é quantos brasileiros despossuídos morrerão em consequência da covid-19 nas periferias urbanas, prisões e aldeias indígenas, nos bairros de classe média ou onde quer que estejam, no interior do semiárido nordestino ou nas margens dos rios que cruzam a Amazônia brasileira. O temor dos que vivem no andar de cima, usufruindo da boa vida que lhes é propiciada, direta ou indiretamente, pelos lucros acumulados com a exploração do trabalho alheio, é que algum deles contraia essa doença e não tenha uma UTI disponível para ser atendido no sistema de saúde.

Por isso, as políticas adotadas pelos governos do capital em nosso país, não são destinadas a evitar a propagação do vírus, com testagem massiva, rastreamento dos infectados, isolamento e tratamento dos doentes. Pois isso pouco importa para os que estão no andar de cima. O que lhes importa é assegurar que haja UTI’s disponíveis para o caso de algum deles necessitar de atendimento médico que exija terapia intensiva. Assim, as medidas referentes a liberar ou não atividades que possam acelerar a propagação do vírus, giram sempre em torno do grau de ocupação desses equipamentos.

É duro chegar a essa conclusão, de que a vida dos mais pobres pouco vale para a chamada “elite brasileira”, que manipula a opinião de uma grande parte da sociedade com o domínio dos meios de comunicação social ao sabor de suas conveniências – mesmo para fazê-la crer na “Solidariedade S.A.”, espécie de merchandising em que grandes empresas fazem caridade, noticiada em rede nacional, com verbas que antes seriam usadas em publicidade. A essa conclusão, de que a “elite brasileira” pouco se importa com o genocídio em curso, somos forçados a chegar por evidências concretas e, até mesmo, pelo cinismo de declarações de autoridades públicas em nosso país.

Em 22 de março o então Ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou: “O que a gente sabe é que quando passa de 50% da população infectada, o vírus já não consegue multiplicar mais na mesma velocidade. Se vai ser 50%, 60% ou 70% da população, isso é secundário.” [1] Assim, se 50% da população brasileira for infectada, morrerá aproximadamente um milhão de pessoas. Se forem 70%, morrerão, aproximadamente, 1,4 milhão. Mas, para o ex-ministro, “isso é secundário”. E cabe salientar que a letalidade do vírus era bem conhecida na ocasião de sua declaração, pois os dados sobre a covid-19 sempre estiveram amplamente divulgados pela OMS.

Na política genocida do Governo Bolsonaro, que até mesmo vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras no comércio, nas escolas e igrejas ou a distribuição gratuita delas pelo Estado para as populações carentes [2], parece que quanto mais rápido 70% da população for infectada, mais rápido o país terá se livrado da pandemia: “Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. Toda nação vai ficar livre da pandemia depois que 70% for infectada e conseguir os anticorpos”. [3] [4]

Entre o capital e a vida, o governo optou pelo capital. Afinal, se houvesse testagem massiva e gratuita para todos que apresentassem algum sintoma, quem pagaria entre R$ 250,00 a R$ 560,00 por um teste em clínicas particulares? [5] Durante algum tempo, pareceu mesmo que se tratava de criar um amplo mercado consumidor de Cloroquina com a propagação do vírus, para beneficiar algumas empresas fabricantes desse medicamento e seus acionistas, entre os quais alguns financiadores de campanhas e partidos no Brasil ou nos Estados Unidos [6] [7]. E, mesmo depois que estudos científicos comprovaram os seus riscos, o Governo Federal continuou insistindo em sua administração no tratamento da Covid-19 no Brasil. [8]

Mas, talvez, nada tenha sido mais cínica que a proposta do Ministro da Economia Paulo Guedes em criar o chamado “passaporte da imunidade”, que permitiria a volta ao trabalho dos que fossem testados e tivessem resultado positivo para anticorpos do novo Coronavírus. [9] No dia 4 de abril ele afirmou que na fase 2 poderiam ser testados 40 milhões de brasileiros por mês: “Hoje pela manhã, conversávamos com um amigo na Inglaterra, que criou o ‘passaporte de imunidade’. Ele faz 40 milhões de testes. Ele coloca disponível para nós, brasileiros, 40 milhões de testes por mês” [10].

Ora, se no começo de abril estavam disponíveis 40 milhões de testes por mês para o país, 120 milhões de brasileiros poderiam ter sido testados até agora. Mas não o foram. Pois, para o andar de cima, os testes não serão feitos para identificar os infectados, rastrear os contágios e conter a propagação do vírus. Mas para confirmar que os sobreviventes do contágio na senzala, poderão voltar a trabalhar. Por isso somente seriam feitos na fase 2 da pandemia. Assim, o trabalhador contrai o vírus na fase 1 e, se a família dele não receber um “atestado de óbito” por sua morte, ele próprio receberá o “passaporte da imunidade” na fase 2.

O que importa mesmo, para o andar de cima que mantém esse governo genocida, é o que afirmou o Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente: “Precisa ter o esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid, e ir passando a boiada, ir mudando todo o regramento e simplificando normas, de Iphan, de Ministério da Agricultura, Ministério do Meio Ambiente, ministério disso, ministério daquilo”[11]. No Ministério da Economia, como diz Guedes, “se aprovarem a [privatização da] Eletrobras temos R$ 16 bilhões. Fica agora no Orçamento e vendo no segundo semestre.” [12] Trata-se de transferir o patrimônio público para a iniciativa privada. Trata-se, entre outros objetivos, de privatizar a Educação, fortalecer o setor privado da Saúde, entregar refinarias da Petrobras, grandes extensões do solo e as riquezas do subsolo do país ao capital internacional.

E, assim, enquanto avança o genocídio na senzala, a casa grande vai “passando a boiada”, mantendo o ritmo das mortes em nível adequado para que existam UTI’s disponíveis, em caso de que seus membros necessitem de algumas delas. E, por fim, Paulo Guedes poderá pedir ao seu “amigo” da Inglaterra que comece a enviar os 40 milhões de testes mensais ao Brasil, para verificar quais dos sobreviventes desse genocídio estarão aptos a voltar ao trabalho, para produzir a mais-valia a ser acumulada como lucro pelas forças econômicas que governam o nosso país.

Publicado originalmente em: https://www.observatoriodacrise.org/post/as-uti-s-da-casa-grande-e-o-genoc%C3%ADdio-na-senzala

 

Coronavírus: o Brasil avança para uma tragédia ainda maior.

Euclides Mance
Curitiba, 09/04/2020

Considerando o número de 1,15 milhão de pessoas que podem vir a óbito no Brasil em razão da Covid-19, conforme estudo de cientistas do Imperial College de Londres (WALKER; WHITTAKER; WATSONET, 2020), há três perguntas básicas que algum jornalista deveria fazer ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Segundo as estimativas que norteiam as ações do Governo Federal, considerando as semanas já transcorridas de contágio, casos severos, casos críticos e mortes relacionadas à pandemia:

1. que porcentagem da população do país será possivelmente infectada pelo novo Coronavírus?

2. que porcentagem dessa população infectada será possivelmente acometida de maneira severa e crítica pela Covid-19?

3. que porcentagem, dos que desenvolverem de maneira severa e critica a doença, chegará possivelmente a óbito?

Se o ministério não tiver respostas para essas três perguntas e não indicar projeções mínimas, médias e máximas para elas, significa que, possivelmente, o país esteja perdido em sua estratégia de enfrentamento da pandemia.

Porém, pelas próprias declarações de Jair Bolsonaro, Henrique Mandetta e Paulo Guedes e pelos padrões de contágio e de letalidade da doença, estudados nos demais países, é possível responder, preliminarmente, a essas três questões.

1. Ao que tudo indica, no essencial, o presidente da República e os ministros da Saúde e da Economia divergem apenas no tempo de execução da mesma estratégia adotada pelo Governo Federal desde o início da pandemia, conhecida por “imunidade de rebanho” (herd immunity). Em vez de conter a propagação do vírus e evitar que as pessoas sejam infectadas, eles esperam que, com exceção dos idosos e doentes crônicos a serem protegidos do vírus pelos familiares, a maior parte da população seja infectada. Bolsonaro deseja que isso ocorra o mais rápido possível e pressiona de todas as formas para suspender o isolamento social. Mandetta deseja que o ritmo seja mais lento, para não colapsar o sistema de saúde. Com base nessa lógica, por exemplo, ele propõe que se suspenda o isolamento social nos municípios ou localidades onde o sistema de saúde não esteja sobrecarregado, mesmo tendo informado anteriormente que o primeiro pico da pandemia no país ocorrerá em abril e que a propagação se tornará mais lenta após o contágio alcançar a 50%, 60% ou 70% da população, (RODRIGUES, 22/03/2020). E Guedes, por sua vez, espera que, na fase 2 da pandemia, sejam testados milhões de brasileiros para identificar os que já foram infectados e possuam anticorpos para o novo Coronavírus, para dar-lhes um “passaporte da imunidade”, que lhes permita voltar ao trabalho (AGÊNCIA ESTADO, 04/04/2020). Em outras palavras, para obter esse “passaporte” e voltar ao trabalho é necessário que a pessoa tenha anticorpos para o coronavírus em seu organismo e isso só ocorrerá depois que for infectada por ele. Assim, ter sido infectada e ter sobrevivido ao Coronavírus é condição para a pessoa obter o tal “passaporte”. Ao final desse processo, de forma mais rápida ou mais lenta, todo o “rebanho” (exceto os idosos e doentes crônicos) teria o certificado de sua “imunidade”. Mas, quantas pessoas do “rebanho” serão acometidas, de maneira crítica e severa, pela Covid-19 se forem infectadas?

2. Com base no que se tem de informação sobre os demais países, estima-se que 80% da população não teria maiores complicações e que 20% da população evoluiria para alguma forma mais severa ou crítica da doença:

“Segundo o levantamento realizado em diferentes partes do mundo e com bases nos dados de serviços de saúde, constata-se que 5% de todos os infectados passam por uma situação “crítica”, exigindo ventilação mecânica. Outros 15% desenvolvem a doença de maneira “severa”, com a necessidade de terapia de oxigênio.” [CHADE, 20/03/2020 ]

Mas, destes 20%, quantos chegariam a óbito?

3. A letalidade da doença varia de país a país, dependendo de muitos fatores, envolvendo características de sua população, a capacidade das autoridades sanitárias de monitorar e evitar a propagação acentuada dos contágios, condição de infraestrutura, moradia e disposição de meios que permitam às famílias realizarem adequadamente a prevenção e tratamento da doença (considerando as infecções de garganta e pulmão) bem como a capacidade do sistema de saúde de atender e salvar os pacientes infectados que tenham desenvolvido a doença de maneira severa ou crítica. A taxa de letalidade mundial, conforme os dados publicados no relatório da OMS para o dia de hoje, 09/04/2020, é de 7,463. A taxa brasileira para esse mesmo dia é 5,023 e continua subindo ao longo da série.

Com base nessas informações, pode-se projetar cenários a respeito da propagação do novo Coronavírus, dos casos severos e críticos e de óbitos que possam ocorrer no Brasil em razão da Covid-19.

Considerando a afirmação do ministro Mandetta de que o primeiro pico da doença ocorre em abril e que a propagação se tornará mais lenta após o contágio alcançar a 50%, 60% ou 70% da população, pode-se imaginar que ao menos 50% da população esteja infectada até o final desse mês, e, considerando que o primeiro caso foi reportado em 26 de fevereiro, pode-se projetar a progressão do número acumulado de pessoas infectadas no país, a uma razão de 1,354 em relação ao dia anterior. Com isso, no dia 30/04 teríamos, ao menos, 106 milhões de pessoas infectadas. E para a data de hoje, 09/04, esse número seria de 183.970. Possivelmente, o isolamento social promovido por governadores e prefeitos  retardou essa propagação. Ver a planilha em anexo, ao final.

Podemos projetar o número aproximado de óbitos para o dia de hoje de dois modos, chegando aos valores máximo, mínimo e médio. Mas, para isso, precisamos calcular a taxa de letalidade média para o conjunto da propagação da pandemia no país e não apenas tomar a última taxa verificada como referência.

Isso é necessário, pois a progressão dos casos graves e do número de óbitos ocorre com oscilações diárias, para mais ou para menos. Assim, necessitamos definir uma taxa média, considerando o conjunto das taxas de letalidade para todos os dias, diluindo essas oscilações, considerando o conjunto da série.

No primeiro caso, calculamos a taxa de letalidade, considerando o número de mortes acumuladas em relação ao número de casos acumulados reportados a cada dia. Assim, temos que:

Taxa de Letalidade 1 = mortes acumuladas / casos acumulados * 100

A taxa média será obtida somando os valores de todas as taxas diárias da série e dividindo o resultado obtido pelo número total de dias da série que apresentem uma taxa maior que zero. Para o dia de hoje esse valor médio é: 4,045%

No segundo caso, calculamos a taxa considerando o número de mortes acumuladas em relação ao número total de pessoas possivelmente infectadas no país, conforme a projeção diária. Assim, temos que:

Taxa de Letalidade 2 = mortes acumuladas / total da população possivelmente infectada * 100

Também aqui a taxa média será obtida somando-se os valores de todas as taxas diárias da série, que será dividido pelo número total de dias da série que apresentem uma taxa maior que zero. Para o dia de hoje, esse valor médio é: 0,908%

Com base nessas taxas, podemos estimar duas diferentes projeções para o número de óbitos acumulados no país para as próximas 24 horas.

No primeiro caso, estimando que 20% da população infectada desenvolva a doença em suas formas mais graves e que 183.970 pessoas já tenham sido infectadas até o dia de hoje, então 36.794 pessoas já teriam sido acometidas de maneira mais severa ou crítica pela doença no país. Considerando que a taxa média de letalidade sobre os casos reportados seja de 4,045%, então o número reportado de óbitos amanhã seria, no máximo, de 1.488. Mas, se a progressão dos infectados foi reduzida pelas medidas de contenção adotadas, esse número seria alcançado em 48 horas ou um pouco mais. Por outra parte, se a progressão do contágio estiver correta e o número reportado à OMS for menor, a diferença apurada poderia ser de óbitos subnotificados por falta de exames que comprovem a causa da morte. No dia 01/04, somente em São Paulo, havia 201 óbitos que aguardavam o resultado do exame para saber se a causa da morte era ou não o novo Coronavírus (COTES, 01/04/2020).

No segundo caso, estimando que o número de pessoas infectadas no país no dia hoje seja de 183.970 e considerando que a Taxa de Letalidade 2 sobre a população infectada seja de 0,908%, temos que o número total de óbitos acumulados na série a ser reportado para o dia amanhã seria, no máximo, de 1.671. Também aqui, como na projeção anterior, esse número poderia vir a ser alcançado em 48 horas ou um pouco mais pelos mesmos motivos citados anteriormente e as diferenças apuradas a menos poderiam ser, igualmente, problemas de subnotificação.

Os valores de ambas as projeções divergem um pouco e, para cada qual, podem ser considerados, diariamente, valores mínimo, médio e máximo. O valor mínimo para um determinado dia é o valor projetado como máximo para o final do dia anterior, já com as taxas médias novamente ajustadas. O valor máximo é o valor que resulta da projeção para o final do dia em questão.

Assim, considerando o primeiro caso, a mínima de mortes acumuladas pela Covid-19 a ser reportada no dia 10/09 seria de 1.099 e a máxima seria de 1.488 e a média seria de 1.293. Mas a depender da velocidade de progressão da pandemia, das medidas de contenção e subnotificações por falta de materiais para a testagem dos pacientes que vieram a óbito, o valor mínimo poderia ser alcançado no relatório do dia seguinte, 11/04.

Por outra parte, considerando as projeções para os diferentes dias e os números oficiais informados à OMS pelo país, pode-se tomar como projeção, para o valor mínimo, o mais próximo da série de projeção que tenha superado o valor informado no último relatório da OMS e, como máximo, o valor previsto para o próximo dia em relação ao mínimo selecionado. Nesse caso, considerando a Taxa Média de Letalidade 1, aplicada sobre o número de casos graves, o número mínimo acumulado até o presente dia seria de 812 óbitos, o máximo seria de 1.099 e o número médio seria 956 – ver tabela no Anexo.

Por fim, se os dados reportados à OMS forem completos e eles ficarem fora dos parâmetros mínimo e máximo projetados, deve-se ajustar o coeficiente de progressão, pois a velocidade de contágio a cada dia e, consequentemente, o número da população infectada, foram alterados pelas medidas de contenção adotadas.

Uma tragédia ainda maior que a anunciada

Se a progressão dessa pandemia seguir com esses padrões e alcançar a quase totalidade dos habitantes no país sob a estratégia de “imunização de rebanho”, as mortes poderão ultrapassar a cifra de 1.152.283 pessoas, estimada por um grupo de 47 cientistas do Imperial College de Londres (WALKER; WHITTAKER; WATSONET, 2020).

Isso é também comprovado pela nossa projeção que, com base na Taxa Média de Letalidade 1 de hoje, aplicada sobre a projeção de casos graves totais, chegaria à cifra mínima de 1.584.637 e a uma cifra máxima de 1.700.111 óbitos, quando o contágio alcançasse todo o conjunto da população residente no Brasil. A projeção que fazemos, entretanto, varia a cada dia, conforme os dados reportados pelo Brasil à OMS. Esperamos que essas cifras não sejam alcançadas e que o Governo Federal altere, o quanto antes, a estratégia geral de combate da pandemia no país, passando a evitar o contágio da população pelo vírus, em vez permitir a sua expansão lenta ou rápida pelo país.

Para reduzir o número de mortes é preciso evitar que a população contraia o vírus, contendo os focos de sua propagação, com todas as medidas necessárias de testagem massiva, rastreamento do contágio, isolamento dos casos e quarentena das pessoas que tiveram contato com as pessoas infectadas. A preocupação com o atendimento dos doentes graves no sistema de saúde é da maior importância. Bem como a preocupação em evitar o contágio da população, incluindo os profissionais de saúde, pois essa é a única medida que poderá impedir que aproximadamente 42 milhões de habitantes do Brasil venham a desenvolver as formas críticas e severas da Covid-19 e que mais de um milhão de pessoas venham a óbito em nosso país acometidas por essa doença.

Se medidas urgentes não forem tomadas nos próximos dias nesse sentido, em mais algumas semanas elas poderão vir tarde demais.

Como essas projeções se referem a fenômenos complexos, pode ser que a partir de algum momento passe a ocorrer algum desvio nos resultados gerados na planilha em anexo. Cabe fortemente ressaltar que essa planilha se trata apenas de uma ferramenta de projeção, ainda não validada entre pares, a ser confrontada com outras, não devendo servir de base exclusiva para qualquer tomada de decisão de qualquer natureza.

Compartilhamos esse estudo, no estágio preliminar em que se encontra, na esperança de que ele seja útil para compreender a gravidade do momento que o país atravessa e para que milhares de mortes possam ser evitadas no Brasil nos próximos meses.

Anexo 1

A planilha, em anexo nesse link, permite atualizar as referidas projeções a cada dia e seus resultados têm valor apenas hipotético e, tão somente, para o caso de que seja mantida a atual estratégia de “imunidade de rebanho” adotada pelo Governo Federal, que cogita conceder certificado de imunização à população que desenvolva naturalmente anticorpos ao coronavírus, com base em sua prévia infecção por ele, e que, evidentemente, sobreviva à Covid-19, caso tal infecção venha a evoluir para as formas severa e crítica dessa doença.

A planilha deve ser alimentada com os dados sobre novos casos e novas mortes relacionados à Covid-19 no Brasil, atualizados diariamente pela OMS e que podem ser descarregados nesse link. A introdução de novos valores na planilha leva a uma atualização de todas as séries de projeção de óbitos acumulados, reordenando os padrões de progressão, com base na nova informação agregada, que altera os valores considerados como mínimo e máximo, em relação às datas presente e futuras.

Descrição das Colunas

A – Data de Referência
B – Novos Casos, conforme relatório publicado diariamente pela OMS
C – Novas Mortes, conforme relatório publicado diariamente pela OMS
D – Total de Casos Acumulados, somatória da série completa de novos casos
E – Total de Mortes Acumuladas, somatória da série completa de novas mortes
F3 – Taxa Média de Letalidade 1, com base nas taxas de letalidade ao longo da série da coluna F.
G – População Infectada Acumulada: valores absolutos projetados com base na razão de 1,354 ao dia em relação ao dia anterior, para alcançar metade da população do país em 30/04/2020 partindo do primeiro caso registrado em 26/02/2020.
H3 – Taxa Média de Letalidade 2, com base nas taxas de letalidade ao longo da coluna H, calculadas considerando os Totais de Mortes Acumuladas em relação aos Totais de População Infectada Acumulada.
I – Total de Casos Graves Acumulados: estimativa de 20% da População Infectada Acumulada. Inclui os casos severos e críticos.
J – Total de Casos Severos Acumulados: estimativa de 15% da População Infectada Acumulada
K – Total de Casos Críticos Acumulados: estimativa de 5% da População Infectada Acumulada
L – Total de Mortes Absolutas Acumuladas – Projeção 1: baseada na Taxa Média de Letalidade 1 aplicada sobre o Total de Casos Graves Acumulados
M – Total de Mortes Absolutas Acumuladas – Projeção 2: baseada na Taxa Média de Letalidade 2 aplicada sobre População Infectada Acumulada

Referências Bibliográficas

AGÊNCIA ESTADO. Guedes sugere “passaporte de imunidade” para reabertura econômica. 04/04/2020. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/economia/guedes-sugere-passaporte-de-imunidade-para-reabertura-economica/. Acesso em 09/04/2020.

CHADE, Jamil. Proliferação de vírus acelera e gera 20% de casos severos e críticos. 20/03/2020. Disponível em https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/03/20/coronavirus-pode-gerar-20-de-casos-severos-ou-criticos-diz-oms.htm Acesso em 09/04/2020

COTES, Paloma. Duzentos corpos em São Paulo aguardam resultado para exame do novo coronavírus. O Estado de S.Paulo. 01/04/2020. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,duzentos-corpos-em-sao-paulo-aguardam-resultado-para-exame-novo-coronavirus,70003256477 . Acesso em: 09/04/2020

MANCE, Euclides. Novo Coronavírus e Teorias de Rede – Enfrentamento da Pandemia e da Crise Econômica no Contexto Brasileiro. 26/03/2020. Disponível em: https://www.alainet.org/sites/default/files/coronavirus-e-teorias-de-rede.pdf. Acesso em: 09/04/2020

MANCE, Euclides. Coronavírus – O Capital ou a Vida. 17/03/2020.  Disponível em: http://euclidesmance.net/wp/index.php/2020/03/17/coronavirus-o-capital-ou-a-vida/. Acesso em 09/04/2020.

OMS. Download today’s data on the geographic distribution of COVID-19 cases worldwide. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/download-todays-data-geographic-distribution-covid-19-cases-worldwide. Acesso em 09/04/2020

RODRIGUES, Eduardo. Mandetta: quando chegar em 50% das pessoas infectadas ritmo vai diminuir. UOL, 22/03/2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/03/22/mandetta-quando-chegar-em-50-das-pessoas-infectadas-ritmo-vai-diminuir.htm> Acesso em: 26/03/2020

WALKER, Patrick; WHITTAKER, Charles; WATSONET, Oliver et al.The Global Impact of COVID-19 and Strategies for Mitigation and Suppression. Imperial College London (2020). Disponível em: https://doi.org/10.25561/77735 . Acesso em: 09/04/2020

Coronavirus – O Capital ou a Vida

Os dados da Organização Mundial da Saúde sobre a pandemia do coronavirus separam os números da China e do restante do mundo.

Na China, a situação está sob controle, graças a uma forte intervenção do Estado e a atuação comprometida da população em enfrentar a propagação do vírus. Mas no restante do mundo, a propagação e o número de óbitos seguem aumentando rapidamente.


Fonte: http://plataforma.saude.gov.br/novocoronavirus/

Anteontem (15/03) morreram 343 pessoas no mundo por complicações do coronavirus. Ontem morreram 862 pessoas. E, pelas  projeções, com base nos dados da OMS, mantidas as mesmas curvas, hoje possivelmente  irão morrer entre 968 pessoas, no melhor cenário (considerando a inflexão de propagação do vírus no dia 01/03) a 2.163 pessoas no pior cenário, considerando a taxa de letalidade de ontem para hoje. [*]

Se o governo brasileiro não tomar medidas inteligentes agora, milhares de brasileiros irão morrer nos próximos meses, vítimas desse vírus e também da negligência das autoridades. A China construiu hospitais em tempo recorde, estabeleceu a quarentena e o bloqueio à circulação de milhões de pessoas. A Espanha estatizou hospitais, para assegurar atendimento ao conjunto da população.

Mas, em nosso país, o Governo Federal reluta em tomar medidas necessárias, preconizadas pela própria OMS, como a testagem em massa da população. Por que o governo não faz essa testagem massiva? Será que a ideologia do livre-mercado falará mais alto que vida da população brasileira, forçando as pessoas a procurem clínicas particulares para fazer o teste, sob a desculpa de que faltaria dinheiro ao Governo para pagar por eles?

Nos EUA, como publicado pelo UOL Notíciais, “procedimentos relacionados ao coronavírus, incluindo diagnósticos e tratamentos, podem custar entre 441 dólares (cerca de R$ 2.153, segundo a cotação do dia) e 1.151 dólares (R$ 5.619)”, preços que metade da população daquele país não poderia pagar, segundo a pesquisa.

No Brasil, para quem tem plano de saúde, a empresa prestadora do serviço tornou-se obrigada a fazer o teste. Mas, quem não tem plano privado de saúde, terá que pagar, por um produto escasso, a preços muito altos, se quiser fazer o exame: “o preço dos kits vendidos no mercado é de cerca de R$ 3 mil e permite até 20 exames.” [1]. Exames nas clínicas particulares custam entre R$250,00 a R$ 560,00 em Belo Horizonte [2].

Num cenário de empobrecidos, desempregados e endividados, como no Brasil atual, o resultado dessa política será catastrófico para a saúde no país, ampliando rapidamente a taxa de propagação da pandemia entre nós.

Se essa lógica capitalista, de explorar a demanda para fazer lucro, não for substituída imediatamente pela lógica de assegurar o direito à vida da população brasileira, fazendo a testagem massiva que a OMS preconiza,  a pandemia do coronavirus vai matar dezenas ou centenas de milhares de pessoas no país, em sua maioria pobres e excluídos, enquanto alguns vão enriquecer às custas da morte desses empobrecidos e marginalizados.

É revoltante ler nos jornais que o Governo Federal espera, nas palavras de Paulo Guedes, aproveitar a situação para privatizar  empresas publicas, como a Eletrobras, no segundo semestre, sendo que, pelo contrário, deveria estar estudando a possibilidade imediata de estatizar hospitais, como ocorre na Espanha, para fazer cumprir o que a Constituição brasileira assegura aos cidadãos brasileiros: saúde pública, gratuita, universal e de qualidade. Universal significa para todos/as, indistintamente.

Dado o descaso com a propagação do vírus até agora, que parece proposital por parte do Presidente da República – ao afirmar que é “fantasia” a realidade informada pela Organização Mundial da Saúde sobre a propagação e letalidade do vírus  -,  se a população brasileira não se auto-organizar rapidamente para dar outro desfecho a essa situação, adotando por conta própria as medidas exitosas que foram adotadas nos países asiáticos, será muito difícil conter o contagio massivo entre nós. O próprio governo já estima que a taxa de contágio pode chegar a 80% superando a taxa de contágio da Itália [3].

Se isso é verdade, é preciso aumentar rapidamente o número de equipamentos para a entubação dos pacientes em estado grave que surgirão aos milhares, em poucas semanas, nos hospitais.

Pois a irresponsabilidade presente, das autoridades que desgovernam o país, nos levará a essa tragédia futura, que custará a vida de milhares de brasileiros e brasileiras, em sua maioria empobrecidos, que serão, por fim, excluídos da vida , para assegurar os lucros do capital.


Notas

[*] Nota agregada em 19/03. Com base nos dados informados pela OMS e compilados pelo Ministério da Saúde no Brasil, a cifra de 968 óbitos foi ultrapassada em, aproximadamente, 39 horas.


As Redes de WhatsApp como Armas de Guerra Híbrida na Campanha Presidencial de Jair Bolsonaro

Euclides Mance
24 / 10 / 2018



Diagrama da Rede

Pelo que conseguimos entender até agora, a campanha de Jair Bolsonaro à presidência foi enxertada numa rede de redes já pré-existente, com ramificações em diferentes países.

Toda rede é constituída por nodos (nesse caso, pessoas, grupos, comunidades, igrejas, partidos, empresas, fundações, outras instituições, etc.) e de ligações entre eles. Mas o aspecto essencial de uma rede são os fluxos, a circulação de diferentes elementos por meio das ligações que conectam os nodos.

É a partir do fluxo desses recursos que os nodos emergem na rede, se sustentam, se multiplicam e se ramificam.

É analisando os fluxos que percebemos a configuração centralizada, descentralizada ou distribuída de uma rede.

Para quem deseja se aprofundar no tema sobre as diferentes abordagens e análises de rede, deixo esse link de uma aula que ministrei sobre o assunto. [1]

Há diferentes tipos de fluxos em redes que integram a seres humanos, que podem ser resumidos em fluxos de recursos materiais, de poder e de conhecimento. Os fluxos de conhecimento são mediados por fluxos de informação e de interpretação. Os interpretantes humanos da informação são as emoções, ideias e ações, desencadeadas no receptor do fluxo pelos signos da mensagem.

Félix Guattari nos ensinou que as semióticas hegemônicas do Capitalismo Mundial Integrado operam na modelação das subjetividades [2]. Isto significa que o agenciamento capitalista do desejo, do medo e de outras intensidades humanas opera na produção da subjetividade dos indivíduos, desencadeando diferentes emoções, ideias e ações, modelando imaginários, utopias e distopias para que atuem como trabalhadores, consumidores e eleitores em favor dos objetivos do capital.  [3].

Os fluxos de rede, mediando recursos materiais, poderes e conhecimentos, na produção de subjetividades fazem surgir atores que não existiam. Contemporaneamente, a intervenção no mais íntimo da subjetividade dos indivíduos pela publicidade e propaganda é mediada por algoritmos de computação, que canalizam os conteúdos das semioses hegemônicas sob formas adequadas para atingir de maneira eficiente os públicos específicos, segundo segmentações dinâmicas.

É pela análise dos fluxos que podemos desenhar o diagrama de rede. Considerando a campanha de Bolsonaro à presidência, o diagrama de rede, que pouco a pouco vai sendo desvendado, parece organizar-se com três níveis escalares.

O primeiro é centralizado, o segundo descentralizado e o terceiro distribuído.

Nessa rede a comunicação mediada por aparelhos celulares e computadores é essencial para a obtenção da modelação semiótica dos interpretantes de amplos segmentos da sociedade para que pensem, sintam e atuem segundo os objetivos estratégicos da campanha.

Trata-se de uma estratégia de  guerra híbrida, em que o campo de operações, o território de combate, é a própria subjetividade dos alvos ou, se preferirem, dos públicos-alvo das semioses desencadeadas por meio da rede de redes que opera de forma sinérgica  na campanha.

Fluxos Centralizados no Primeiro Nível da Rede

O primeiro nível dessa rede de redes integra atores militares, políticos e econômicos. Nesse nível tomam-se as decisões estratégicas de alto-comando. Esse nível é composto por uma rede centralizada. Mas Bolsonaro não está no centro dela. Ele é apenas um ator coadjuvante em meio a um conjunto de conexões e fluxos de rede que já existiam antes dele e que dele se serve para alcançar propósitos econômicos, políticos e militares de interesse do grande capital internacional em território brasileiro.

Esse nodo central de rede da campanha, composto por diferentes atores, administra fluxos de recursos, de poder e de comunicação que alimentam os hubs do segundo nível de rede.

Cada um desses atores do nodo principal possui conexão com outras redes, no Brasil e no exterior, vinculados a interesses próprios.

Assim, como mostramos no livro “O Golpe”, jovens brasileiros, que foram capacitados por organizações norte-americanas [3] [4], assumiram o controle do Partido Social Liberal [5] que, depois, tornou-se a legenda de suporte da candidatura de Bolsonaro para implementar as reformas que interessam ao capital internacional, como a privatização das estatais e a entrega do petróleo brasileiro a empresas multinacionais [6] .

Fluxos Descentralizados no Segundo Nível da Rede

O segundo nível dessa rede de redes é descentralizado. Isto é, cada hub do segundo nível está conectado a um determinado conjunto de nodos do terceiro nível e não a todos eles. A conexão se faz basicamente por meio do WhatsApp. Por sua vez, Facebook, Twitter, Instagram e Youtube são importantes para a segmentação dos públicos segundo suas preferências e para posicionamento aberto de diferentes conteúdos.

Como as contas dos usuários em diferentes redes exigem números de telefone para a sua validação, os algoritmos do sistema usado na campanha podem cruzar os números de telefone do WhatsApp com os números usados para validação da conta do usuário nessas outras redes.

A partir desse cruzamento torna-se possível gerar bases de dados gigantescas, segmentadas pelas preferências e interesses dos usuários.

Com tal segmentação torna-se possível direcionar os conteúdos no WhatsApp a públicos específicos de modo que o agenciamento dos interpretantes mentais, emocionais e ativos dos eleitores seja mais eficiente para levá-los a votar em Bolsonaro.

O Brexit [7] e a eleição de Trump [8] comprovaram a eficiência desse modelo, adotado pelas forças de direita em outras nações e  agora no Brasil para fraudar, sob o aspecto substancial, as eleições no país, induzindo a população a escolher candidatos com base em notícias falsas, em imagens e vídeos montados por equipes de especialistas, que levam a tomar o que é imaginário como se fosse real, submetendo as subjetividades dos receptores dessas mensagens a um bombardeio constante de semioses que agenciam aversão, medo, raiva e ódio, que são sentimentos e intensidades mais facilmente manipuláveis para mobilizar as condutas esperadas do público-alvo.

É nesse segundo nível que os robôs ou bots – como preferirem –, operando com algoritmos de inteligência artificial, cumprem um papel central e indispensável na organização do fluxo de comunicação. Pois seria impossível a uma equipe de seres humanos ler milhões de mensagens para classificá-las e redistribuí-las rapidamente. Essa tarefa é realizada por esses programas.

Passado o primeiro turno das eleições, o Whatsapp desativou mais de cem mil contas da campanha de Bolsonaro que cumpriam esse papel de segundo nível na redistribuição de mensagens falsas para o terceiro nível da rede [9].

No primeiro nível, o aplicativo adotado para o intercâmbio de mensagens era o Telegram:

“A gestão da rede de grupos de WhatsApp acontecia toda no Telegram, aplicativo de mensagens russo. Nos grupos dessa cúpula, de acordo com os relatos, estariam os Bolsonaros, assessores diretos, representantes das agências contratadas e alguns militantes de confiança. Estes dispunham de chips da campanha para gerir braços dessa rede. Muitos recebiam o conteúdo diretamente dos criadores, a fim de quebrar a cadeia de comando e dificultar acusações de que a campanha veiculava notícias falsas.”  [10]

Para reparar o seu sistema de comunicações no segundo nível da rede, a campanha de Bolsonaro parece ter migrado parte  dos bots do segundo nível também para o Telegram [11].

Tais robôs, providos de alguns mecanismo de inteligência artificial, fazem-se passar por usuários dessas redes. E, operando a partir de números de telefone do exterior [12], podem disparar milhões de mensagens para os hubs do terceiro nível da rede, integrados em comunidades de diferentes tipos, que abastecerão as pessoas realmente existentes com um conteúdo filtrado, segundo os parâmetros desses algoritmos.

Tais hubs são nodos hiperconectados em relação aos demais nodos de seu nível. Assim, os nodos do nível 2 são, igualmente, hubs do nível 3, cumprindo o papel de mediar conteúdos, segundo a deliberação do alto comando da campanha no nível 1, fazendo tais conteúdos chegarem às pessoas de carne e osso por meio indireto, alimentando grupos de famílias, comunidades, Igrejas e outras instituições.

Ao ter sua conta banida do WhatsApp,  Flávio Bolsonaro protestou:

“A perseguição não tem limites! Meu WhatsApp, com milhares de grupos, foi banido DO NADA, sem nenhuma explicação! Exijo uma resposta oficial da plataforma” [13]

Mas como um ser humano poderia normalmente interagir com milhares de grupos ao mesmo tempo?

O papel dos robôs, no segundo nível dessa rede, é essencial para o funcionamento dela como um todo.

Do mesmo modo que temos filtros de mensagens, que as arquivam em diferentes pastas ou as caracterizam com diferentes atributos assim que elas chegam em nossa caixa de correio eletrônico, tais bots filtram e distribuem o conteúdo das mensagens de WhatsApp para os diferentes grupos, enviando conteúdos selecionados  para conjuntos específicos de usuários.

O mais importante para a equipe contratada pela campanha, que alimenta os bots do segundo escalão com mensagens, memes e vídeos são as palavras-chaves, as tags programadas no algoritmo, que identificam o conteúdo disparado. Pois é a partir delas que o programa filtra o que deve ser enviado para cada segmento do público.

Mas, esses bots, ao que tudo indica, também fazem um movimento inverso, filtrando as mensagens que recebem dos nodos do terceiro nível da rede, com os quais estão conectados. E quando os critérios previstos no algoritmo de tratamento dessas mensagens são cumpridos, como volume de curtidas de pessoas reais, a existência de palavras chaves em seu conteúdo, formato e tamanho, etc, a mensagem é disparada para os demais bots do segundo nível, que igualmente operam como hubs de distribuição por meio dos diferentes canais de comunicação a que estão conectados.

A depender do grau de automação desses programas, a liberação desse disparo final de mensagens – vindas do terceiro nível – para o conjunto dos hubs do segundo nível, que deverá reenviá-las ao conjunto dos nodos do terceiro nível da rede, pode depender da ação de um moderador humano, que segue as diretrizes do primeiro nível da rede. Em caso de dúvida, este moderador pode contar com uma decisão do primeiro nível da rede, sobre o que deve ser distribuído ou não, com base no arsenal heurístico obtido através de empresas de marketing e do monitoramento dos próprios usuários, verificando os ajustes a serem feitos na realimentação do fluxo de mensagens, conforme o rastreamento da sua repercussão.

Fluxo Distribuído no Terceiro Nível da Rede

O terceiro nível da rede é distribuído – a conexão se faz ponto a ponto – “per to per” – com alta capilarização e participação do receptor na agregação de maior carga de interpretantes ao redistribuir a mensagem recebida, adicionando-lhe comentários.

Aqui se trata, de fato, das pessoas que recebem mensagens em seus celulares e as repassam adiante, para grupos familiares, de igrejas e outros. Nesse caso, os filtros já não são mais os previstos num algoritmo computacional, mas contam com o feeling do receptor que faz a triagem de qual conteúdo irá reenviar para qual pessoa ou para qual grupo.

Ao agregar seus próprios comentários a uma fake news como se fosse uma notícia verdadeira, o participante empresta a ela a sua própria credibilidade – embora não tenha verificado a sua autenticidade, o que poderia levar horas ou dias de pesquisa.

Assim, ao agregar seus comentários à mensagem e reenviá-la aos seus pares, aumenta a credibilidade da mensagem enviada, pois a sua própria reputação no grupo é tomada por terceiros como elemento de validação daquilo que compartilha.

Tais reenvios ocorrem, entre outros aspectos, porque, para não se sentirem isoladas nos grupos, as pessoas necessitam se manifestar e o fazem de modo a serem confirmadas como membros do próprio grupo, evitando gerar dissonância cognitiva em seu interior. Ao receber por mais de uma fonte, entre seus pares, algum conteúdo idêntico, tende a considerá-lo um conteúdo válido, podendo consolidar seus vínculos no grupo ao compartilhar com os demais um conteúdo novo recebido, pois ele está afirmado por mais de uma pessoa confiável no conjunto de suas relações.

Em razão desse mecanismo, ela tende a reafirmar o que circula pelo grupo como posição válida pela maioria e como elemento de confirmação de seu próprio pertencimento ao grupo.

E depois de fazer o mesmo com várias mensagens, passa a refutar outras, que receba de outras fontes, que discordem das posições por ela já assumidas publicamente em suas redes, evitando entrar em dissonância cognitiva consigo própria ou em contradição com suas comunidades de referência, das quais busca a aprovação e não a reprovação pública.

Com base nos critérios de segmentação adotados na montagem do segundo nível de rede, as mensagens são distribuídas para os hubs de terceiro nível conforme a natureza identitárias dos grupos nos quais eles operam como cabeça de rede.

Na campanha de Bolsonaro, foram distribuídas milhões de mensagens falsas pelo WhatsApp, ao ponto da empresa eliminar, como vimos, mais de 100 mil contas que operavam no segundo nível dessa rede de veiculação de conteúdo falso [14].

O signo e seu objeto

O objeto da guerra semiótica dessa nova classe de totalitarismo está na interpretação da relação entre o signo (imagens, textos, etc) e seu objeto (aquilo que ele representa) – pois o signo pode representar falsamente o objeto. Porém, se a representação falsa é bombardeada como sendo verdadeira e o interpretante aplicado pelo alvo da semiose, isto é, pelo eleitor, for a de que o signo corresponde verdadeiramente ao objeto, então o falso é tomado por verdadeiro e pode determinar a sua escolha sobre em quem votar.

Do ponto de vista lógico, afirmar a falsidade da falsa representação requer afirmar que um predicado não se aplica verdadeiramente a um sujeito. Mas, para isso, é preciso primeiramente pensar os dois elementos – o sujeito e o predicado – para então afirmar que o predicado não se aplica ao sujeito, correlacionando-os de maneira negativa. Assim, para refutar a falsidade é preciso correlacionar ambos os termos mediante uma negação lógica.

Contudo, politicamente, tal refutação pode operar como reforço da própria acusação, pois ela reativa no interlocutor a relação simbólica entre o signo e o objeto, entre o sujeito e o predicado, para afirmar que o signo representa falsamente o objeto. Porém, se o interpretante de mentiroso é aplicado ao interlocutor que tenta provar que o argumento é falso, quanto mais ele argumenta mais será confirmado como mentiroso e será, assim, reforçada a percepção de que a própria mentira, amplamente difundida, é uma verdade.

Isso torna a massiva difusão de fake news – que penetra as redes de terceiro nível da campanha de Bolsonaro e de outras campanhas idênticas de direita em outros países – uma arma poderosa de manipulação das sociedades, no contexto atual das Guerras Híbridas.

Guerra Híbrida

Um documento recente do Departamento de Defesa dos Estados Unidos se refere a diferentes âmbitos da ação militar, nos quais a supremacia do país deve ser consolidada – terra, ar, mar, espaço e ciberespaço:

“Durante décadas, os Estados Unidos desfrutaram de superioridade incontestável ou dominante em todos os domínios operacionais. […] Hoje, todos os domínios são contestados – ar, terra, mar, espaço e ciberespaço.” [15]

Embora isso possa parecer surpreendente para alguns,  o ciberespaço é um domínio operacional de ação militar das Forças Armadas dos Estados Unidos desde o início da Internet ou mesmo antes dela.

De fato, a rede global de computadores que hoje conecta também a maior parte dos telefones celulares e muitas outras coisas no mundo todo, nasceu a partir da Arpanet – um projeto militar de defesa dos Estados Unidos  [16] –, sendo, desde o seu início, um dos campos de ação militar no qual as forças armadas do país atuam com vistas a assegurar a sua superioridade.

Antigos métodos de propaganda, contrapropaganda e desinformação, levados a cabo no passado por órgãos de inteligência dos Estados Unidos, hoje são implementados por redes de fundações e de outras organizações da sociedade civil [17] que recebem milhões de dólares em doações para capacitar lideranças, como as que tomaram o controle do Partido Social Loberal – PSL e consolidaram redes de jovens que promoveram o impeachment de Dilma e que agora atuam pela eleição de Bolsonaro. Sobre os procedimentos adotados nessas ações, veja-se o item “Ação Aberta” (seção 1.5.8) e o capítulo 4 do livro O Golpe [16]

Tais procedimentos integram diferentes táticas de guerra política e ciberguerra, com a propagação de fake news, emprego de lawfare e de intervenção eleitoral com apoio externo. Nesse contexto, é extremamente preocupante a meta de Bolsonaro em liberar o acesso e o porte de armas de combate (pistolas e fuzis) para a população em geral.

O núcleo duro desta rede pode ser detectado pela análise do fluxo de recursos e de conhecimento que possibilita a sua própria sustentação e propagação. Ele está nos Estados Unidos: desde o treinamento de lideranças do MBL, com recursos da Atlas Network e do Students for Liberty, até o apoio à transformação do PSL para abrigar a campanha de Bolsonaro ou à transposição de propostas do Partido Libertariano para o Brasil.

Trata-se de uma rede de redes que, a cada dia, vamos compreendendo um pouco melhor em sua extensão e funcionamento.


O Futuro do Turismo no Brasil e as Eleições de 2018

Euclides Mance
12/10/2018

Imagine que você resolva sair com a família para ir a um restaurante num belo domingo ou para se encontrar com os amigos num bar num sábado a noite ou se hospedar num hotel em Santa Catarina, para curtir um fim de semana nas belas praias de Florianópolis.

Mas, chegando ao seu destino, você percebe que, espalhados pelas mesas do restaurante, em frente ao balcão do bar ou no hall do hotel, estão sentados vários homens, armados com revólveres e pistolas, aparentemente clientes do estabelecimento.

O que você faria? Ficaria nesse ambiente ou buscaria outro lugar para estar mais relaxado com a família, com os amigos ou para passar um fim de semana?

Santa Catarina e outros estados brasileiros devem perder muitos turistas, especialmente do exterior, a depender do resultado das eleições de 2018. Pois ambientes com armas de fogo nas mãos de desconhecidos, que entram e saem dos estabelecimentos comerciais, afugentam os turistas que querem apenas relaxar.

Um dos candidatos a presidente já afirmou em vídeo que fará o possível para que todos os cidadãos de bem no Brasil tenham uma pistola como a Taurus TS e que produtores rurais tenham um fuzil como o Taurus T4.

Mas você sabe qual é a diferença entre um revólver e uma pistola?

Veja o que diz uma empresa especializada:

O revólver é conhecido por muitas pessoas como uma arma de defesa, já que está sempre pronto para ser utilizado sem a preocupação se está travado ou não. Em caso de falha de munição outro disparo pode ser efetuado com maior facilidade. Por outro lado, possui pequena quantidade de munições e leva mais tempo para ser recarregado.

As pistolas são consideradas armas de combate, pois possuem maior capacidade de número de munições, podem ser disparadas e recarregadas rapidamente […]. [1] [2]

O revólver possui de 5 a 8 munições ao passo que a pistola possui de 15 a 19. [3]

Veja, no vídeo abaixo, que um dos candidatos a presidente propõe que os cidadãos tenham pistolas e fuzis, isto é, armas de combate. E, para facilitar o acesso a essas armas pela população, ele propõe revogar a legislação a respeito.

Mas você sabe o que a legislação atual exige para que alguém possa comprar uma arma e andar armado pelas ruas? Basicamente comprovar que possui condições psicológicas e fez um curso de tiro para manuseá-la, devendo registrá-la junto à Polícia Federal e obter a autorização para o porte de arma de fogo.

Veja o que diz a lei:

Art. 4o Para adquirir arma de fogo de uso permitido o interessado deverá, além de declarar a efetiva necessidade, atender aos seguintes requisitos:

I – comprovação de idoneidade, com a apresentação de certidões negativas de antecedentes criminais fornecidas pela Justiça Federal, Estadual, Militar e Eleitoral e de não estar respondendo a inquérito policial ou a processo criminal, que poderão ser fornecidas por meios eletrônicos;

II – apresentação de documento comprobatório de ocupação lícita e de residência certa;

III – comprovação de capacidade técnica e de aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, atestadas na forma disposta no regulamento desta Lei. [4] [5]

Pela lei, se o proprietário não tiver o porte da arma, esta deve ser mantida em sua residência ou em seu estabelecimento comercial. Mas veja o que diz a lei para a obtenção do porte de arma de fogo:

Art. 10. A autorização para o porte de arma de fogo de uso permitido, em todo o território nacional, é de competência da Polícia Federal e somente será concedida após autorização do Sinarm.

§ 1o A autorização prevista neste artigo poderá ser concedida com eficácia temporária e territorial limitada, nos termos de atos regulamentares, e dependerá de o requerente:

I – demonstrar a sua efetiva necessidade por exercício de atividade profissional de risco ou de ameaça à sua integridade física;

II – atender às exigências previstas no art. 4o desta Lei;

III – apresentar documentação de propriedade de arma de fogo, bem como o seu devido registro no órgão competente.

§ 2o A autorização de porte de arma de fogo, prevista neste artigo, perderá automaticamente sua eficácia caso o portador dela seja detido ou abordado em estado de embriaguez ou sob efeito de substâncias químicas ou alucinógenas. [6]

Se você fizer um comando de busca no Google por “despachante de armas” você encontrará mais de 30 mil resultados. Do mesmo modo que existem despachantes do Detran para facilitar a compra e venda de veículos ou solucionar questões referentes à habilitação de condutor, há despachantes que atuam com armamentos e habilitação para o porte de armas.

A conclusão a que podemos chegar é que alterar as condições atuais para a compra e porte de armas de fogo não aumentará a segurança dos cidadãos, pois tende a elevar o número de tiroteios e de balas perdidas no país. Mas, seguramente, afugentará os turistas, especialmente os estrangeiros, que vêm ao Brasil, como no caso de Santa Catarina.

O que o candidato propõe vai além das pessoas se armarem com armas de defesa. O que ele deseja, conforme o vídeo abaixo, é que a população se arme com armas de combate, porque segundo ele “povo armado jamais será escravizado”.

Mas o que farão os seguidores do candidato, depois que estiverem armados com armas de combate, com pistolas e fuzis? Se o candidato diz que não é capaz de conter a violência de seus apoiadores agora, como será depois, se a compra e o porte de armas de combate forem facilitados?

Você já parou para pensar sobre quantas pistolas, fuzis e munição o crime organizado irá amealhar simplesmente roubando-os dos cidadãos, enquanto estes estiverem distraídos olhando o telefone celular?


Que fazer do seu voto para presidente?

Euclides Mance
07/10/2018

Escrevo essa mensagem pensando em você que pretende votar nulo ou branco, ou que ainda não está seguro da opção que escolheu.

O que eu gostaria de refletir com você é que o medo e o ódio não devem orientar nossas escolhas, pois eles não levam a boas soluções.

Explorando o medo que as pessoas têm de ser assaltadas, o discurso do ódio afirma que elas devem andar armadas para matar o assaltante. Porém, com o aumento das vendas de armas e de munição, com o aumento de pistolas e fuzis por toda parte, aumentará também, por toda parte,  o número de tiroteios e de balas perdidas. E, assim, além do medo de ser assaltado, aumentará também o medo e as chances reais de você e de seus filhos morrerem por balas perdidas, em cinemas, escolas, farmácias, no trânsito e em postos de gasolina, como ocorre nos Estados Unidos e você vê nas TVs todos os meses.

E o bônus, almejado pelos assaltantes, será levar consigo também a pistola ou o fuzil das vítimas, aumentando assim o arsenal de amas e de munição em posse do crime organizado.

Em resumo, o ódio e o medo não trazem uma boa solução para o problema. E se tal solução for posta em prática, ela agravará, ainda mais, o próprio problema da segurança de todos.

Do mesmo modo, afirma-se que, para combater a corrupção, seriam melhor uma ditadura e um líder forte. Dizem que é melhor um Estado autoritário, inclusive para forçar as pessoas a agirem segundo a moral da maioria, devendo todos obedecerem às imposições do presidente, que adotaria uma nova Constituição escrita por notáveis, isto é, pelas pessoas que ele indicar, e que seria aprovada pela maioria da população que o defende como líder. E que os seus opositores devem ser combatidos sem trégua por seus seguidores nas redes sociais, nas escolas, em processos judiciais, com memes e prisões. Que os livros de história devem ser reescritos, para afirmar que não houve uma ditadura no Brasil, mas apenas um movimento militar a partir de 1964.

Porém, se o ditador manda e todos devem obedecer, se a história do passado e do presente serão reescritas segundo a vontade dessa maioria e ninguém pode mais investigar o ditador e seus notáveis, nem as privatizações que ele conduzirá e as empresas que realizarem as obras de seu governo, não se poderá mais apurar os casos de corrupção que ocorram nessa ditadura e tampouco saber do paradeiro dos que venham a ser mortos por se levantar contra ela em defesa da democracia, como ocorreu no Brasil e em países vizinhos nas décadas de 1960 e 1970.

Assim, a solução encontrada pelo ódio para enfrentar a corrupção agrava, ainda mais, o próprio problema.

Você já reparou quantas mensagens você já recebeu falando do futuro de nosso país? Que o Brasil se tornará uma ditadura, com um governo autoritário e comunista? Elas buscam despertar o medo e o ódio. E o que essas mesmas pessoas propõem para evitar que o Brasil se torne uma ditadura comunista? Que você vote num candidato que defende torturadores [1] e cujo vice defende que a democracia pode ser sacrificada por um autogolpe militar [2] para pôr fim a uma possível anarquia no país [3].

Essas mensagens propõem que você vote num candidato que já defendeu a guerra civil como meio para solucionar os problemas do Brasil [4] e que defende que a população possa comprar armas e munição com facilidade [5].

Não é difícil concluir para onde o ódio e o medo estão levando o nosso país. Se houvesse resistência ao autogolpe militar, nenhum impeachment seria possível para destituir o presidente, pois os seguidores do líder, defensores da ditadura, empunhariam suas pistolas e fuzis, levando às vias de fato a guerra civil defendida por Jair Bolsonaro, no passado, como solução para os problemas do Brasil. Mortos seriam os opositores. E repare, pelas mensagens que você já recebe nas redes sociais ou vê nos comentários dos leitores na Internet, que qualquer um que pense diferente desse líder e de seus seguidores é chamado de bandido, corrupto, imbecil ou lixo da humanidade, entre outras expressões de baixo calão. Ele próprio, em tom de escárnio, afirmou há poucas semanas: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”  [6].

Pense bem se é realmente uma boa ideia você votar nulo ou branco.

Não existe nenhuma organização humana, partidos ou governos perfeitos. Mas, com a democracia é possível avançar na melhoria da sociedade, pensando em todos, respeitando os diferentes modos de pensar e de viver.

Não se deixe guiar pelo medo, pelo ódio ou pelos preconceitos criados contra pessoas, partidos ou religiões. Medo, ódio e preconceito não trazem boas soluções. Jair Bolsonaro, pelas declarações que fez e faz, não tem compromisso com a democracia nem com a defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana, explicitados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, firmada em 1948 pelas Nações Unidas para que as atrocidades da segunda guerra mundial, do nazismo e do fascismo nunca mais se repetissem. Ele não teve compromisso nem mesmo com as cadeias de comando das Forças Armadas, como o comprova o processo disciplinar que sofreu [7] e que lhe deu a visibilidade e projeção que passou a explorar politicamente [8].

Jair Bolsonaro não serve para ser presidente do Brasil.

Peço que reflita se não é melhor votar em Fernando Haddad, candidato de um partido que nasceu combatendo a ditadura militar em 1980, que sempre defendeu a democracia e cujo programa de governo não deixa dúvidas quanto às suas propostas. Não existem partidos perfeitos, programas perfeitos, nem candidatos perfeitos. Mas, na democracia, sempre devemos escolher, em cada situação, o que seja melhor para o bem público. O medo e o ódio, que semeiam a morte com pistolas e fuzis, que animam um autogolpe militar e que propagam elogios a torturadores não nos conduzem a um Brasil melhor.


Será o Fim do PSDB?

Euclides Mance
02/10/2018

Numa sociedade democrática os diferentes partidos políticos representam diferentes projetos de país, que se expressam em diferentes programas e maneiras de realizá-los.

Quando o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) nasceu, ele possuía um programa social-democrata e uma identidade própria no quadro político do país. Entre os objetivos de seu programa estavam: “defesa da renda dos trabalhadores, combate à pobreza, universalização do acesso à escola, aos serviços de saúde e à seguridade, modernização do estado e estabilização da economia […] a democracia, a justiça, o desenvolvimento e a soberania nacional.” [1]

Por isso, no segundo turno das eleições de 1989, com base em seu Programa, o PSDB apoiou o PT, em oposição ao projeto político representado por Fernando Collor de Mello.

Alguns anos depois, entretanto, no transcorrer dos governos de FHC (1995-2002), o PSDB renunciou progressivamente à social-democracia que leva em seu nome e assumiu o ideário neoliberal, defendendo extensas privatizações, um Estado mínimo e a abertura irrestrita do país ao capital internacional visando a internacionalização do mercado interno. Tornou-se, na prática, um partido neoliberal, representando interesses dos diferentes setores do capital, particularmente o financeiro e o internacional.

Ao renunciar à sua identidade social-democrata e mover-se ao sabor dos ventos do grande capital, o PSDB passou a aglutinar e expressar as forças que eram contrárias ao projeto político e ao programa democrático e popular defendidos pelo Partido dos Trabalhadores.

Derrotado nas urnas pelo PT e fazendo uma oposição errante, o PSDB perdeu definitivamente sua referência interna de coesão programática, para tonar-se um partido organizado em torno das orientações pessoais de suas principais lideranças, simplificando, externamente, o seu discurso eleitoral, apresentando-se como o polo anti-PT.

Incapaz de derrotar eleitoralmente o projeto político petista de crescimento econômico com distribuição de renda e inclusão social, o PSDB, após quatro reveses consecutivos na disputa presidencial, conduziu o país ao trauma do impeachment, acolhido como um atalho para chegar ao poder. Coube ao partido, com seus vários ministérios no Governo Temer, entregar o pré-sal a grupos estrangeiros, privatizar refinarias e gasodutos, entregar o controle do satélite de defesa brasileiro a uma empresa norte-americana e aprovar várias reformas e medidas que eliminaram direitos dos trabalhadores, congelaram os gastos com saúde e educação por 20 anos e feriram a soberania nacional.

Com o fracasso retumbante do Governo Temer, o PSDB corre agora o risco de desaparecer como partido político e reduzir-se a uma sigla qualquer, após ter sido posto ao serviço de interesses de lideranças partidárias, que colocaram seus projetos pessoais acima dos interesses do país.

Veremos nas próximas semanas se o PSDB abdicará também do Democrático que leva em seu nome. Veremos se tomará posição, como partido, em defesa da democracia, orientando seus eleitores a não votarem em Bolsonaro/Mourão em razão destes defenderam tanto a legitimidade de um Autogolpe Militar, que poderia ser desfechado pelo presidente para conter a “anarquia” no país, quanto a possibilidade de elaboração de uma nova Constituição sem a participação de constituintes eleitos pelo povo, mas feita por “notáveis”, escolhidos pelo presidente para tornar o país governável; bem como, em razão dos seus elogios aos torturadores da última ditadura militar no Brasil e por defender que Pinochet deveria, no Chile, ter matado um maior número de opositores; enfim, em razão das posturas fascistas e preconceituosas defendidas por ambos.

Veremos se o PSDB aproveitará esse momento histórico para reassumir um projeto social-democrata em defesa da “renda dos trabalhadores” e não do lucro do capital financeiro, de “combate à pobreza” e não em defesa do capital internacional, de “universalização do acesso à escola, aos serviços de saúde e à seguridade” e não da privatização desses serviços, o que reduz o seu acesso a quem possa pagar por eles; em favor da “modernização do Estado e da estabilização da economia” que levaram o Brasil a 12 anos de crescimento econômico com distribuição de renda e inclusão social; em defesa da “democracia”, da “justiça”, do “desenvolvimento” e da “soberania nacional” e não do autoritarismo, da entrega das riquezas do país ao capital estrangeiro e do uso do poder judiciário para a prática da perseguição política,  num Estado de exceção, que viola liberdades fundamentais dos cidadãos, a sua intimidade e vida privada,  que viola a honra e a imagem das pessoas, solapando cada vez mais o Estado Democrático de Direito, para implantar, em seu lugar, um Estado Autoritário de caráter fascista, que exalta o uso das armas de fogo pela população para conter a violência com mais violência, com mais balas e vidas perdidas.

É hora do PSDB reencontrar o seu programa de origem, honrar os termos Social e Democracia que leva em seu nome e abandonar o caminho fácil de surfar nas ondas do mercado, do preconceito e da ignorância. Pois se não o fizer, estará extinto como partido político e terá se convertido apenas numa sigla coadjuvante de outra qualquer na encarnação do discurso preconceituoso anti-PT, afirmado na virulência de uma linguagem recheada de adjetivos grotescos; linguagem que, quanto mais chula, mais parece alcançar o inconsciente coletivo do ódio que se descarrega contra algum outro, convertido em bode expiatório de todos os males, dos quais o Brasil seria purificado com a eleição de um presidente fascista, vestido de verde e amarelo.