A Coragem do Presidente Lula na Defesa de Mulheres e Crianças Palestinas

Euclides Mance*
18/02/2024

No dicionário Michaelis a primeira definição de genocídio é: “destruição total ou parcial de um grupo étnico, de uma raça ou religião através de métodos cruéis”. Caberia então perguntar: o povo palestino pode ser caracterizado como um grupo étnico? Sim, pois culturalmente possui uma identidade própria como povo. Nesse exato momento, na Faixa de Gaza, não está ocorrendo a destruição parcial, não apenas de casas, escolas e hospitais, mas da própria população palestina? Mulheres, adolescentes e crianças não estão sendo mortos, aos milhares, por ações militares do Estado de Israel, com seus bombardeios e incursões terrestres? Alguém poderia dizer que corpos fragmentados de mulheres e crianças, que foram impactadas por bombas enquanto dormiam em suas casas ou já longe delas, em razão do êxodo imposto a mais de um milhão de palestinos pelo Estado de Israel, não são corpos destruídos de seres humanos, não são corpos de famílias destruídas, não são corpos de pessoas de um mesmo povo que possui sua identidade étnica? Os milhares de mutilados podem dizer que os seus corpos foram parcialmente destruídos e que suas vidas foram destruídas, que suas famílias foram destruídas, que seus lares foram destruídos, que seu povo está sendo parcialmente destruído. Com base na primeira definição de genocídio do dicionário Michaelis, com respeito ao emprego usual desse termo na língua portuguesa, não haveria um genocídio em curso em Gaza? Faltaria ainda algum requinte a mais de crueldade no método adotado pelo Estado de Israel, seja para evacuar territórios pelo terror das bombas que serão lançadas sobre eles, seja para impedir a chegada de ajuda humanitária, a chegada de alimentos e remédios, a famintos e feridos?

O presidente Lula, corajosamente, falando de mulheres e crianças mortas pelas forças do Estado de Israel, questionou: “[…] eu fico imaginando qual é o tamanho da consciência política dessa gente e qual é o tamanho do coração solidário dessa gente que não está vendo que na Faixa de Gaza não está acontecendo uma guerra, mas um genocídio. De que não é uma guerra entre soldados e soldados, é uma guerra entre um exército altamente preparado e mulheres e crianças. […] O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus. […] Quem vai retribuir a vida de 30.000 pessoas que já morreram, 70.000 que estão feridos? Quem vai devolver a vida das crianças que morreram sem saber por que estavam morrendo? Isso é pouco para mexer com o senso humanitário dos dirigentes políticos do planeta?”

O paralelo, feito pelo presidente Lula, é claro: a morte de mulheres e crianças em contextos de genocídio. Mulheres e crianças foram mortas pela ação de um Estado inspirado pelo nazismo e, hoje, mulheres e crianças são mortas pela ação de um Estado inspirado pelo sionismo. O paralelo feito pelo presidente Lula não é religioso, mas humanitário. Todos os direitos humanos de todos os seres humanos devem ser respeitados, tanto de israelenses quanto de palestinos. O presidente Lula, em suas falas, condenou as ações terroristas do Hamas. E, igualmente, condenou as ações do Estado de Israel, que desrespeitam direitos inalienáveis não apenas ao povo palestino mas a todos os seres humanos; ações pelas quais o Estado de Israel está sendo julgado no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, mais alta corte da ONU. Quem restituirá a vida de 30 mil palestinos mortos? Quem restituirá, a mulheres e crianças sobreviventes, os membros que lhes foram mutilados pela violência da Guerra? Quem restituirá às crianças, que ficaram órfãs, seus pais e mães que foram mortos pelas ações militares do Estado de Israel?

A coragem do Presidente Lula não lhe faltou – e acreditamos que não lhe  faltará – na defesa das mulheres e crianças palestinas, na defesa do povo palestino, para que se ponha fim ao genocídio em curso na Faixa de Gaza.

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* Euclides Mance é filósofo e autor do livro “Filosofia da Libertação” (Conhecer, 2022).

A Banalidade do Mal

Euclides Mance
13/02/2024

11.500 crianças e adolescentes foram mortos em Gaza. Por favor, pare, Israel.
11,500 children and teenagers have been killed in Gaza. Please stop, Israel.
11.500 niños y adolescentes fueron muertos en Gaza. Por favor, detente, Israel.
11 500 enfants et adolescents ont été morts à Gaza. S’il vous plaît, arrêtez, Israël.
A Gaza 11.500 bambini e adolescenti sono stati morti. Per favore, fermati, Israele.
In Gaza 11.500 Kinder und Jugendliche wurden getötet. Bitte hör auf, Israel.

Sobre o emprego do conceito de “massacre” ou “genocídio” às ações do Estado de Israel em Gaza, cabe recordar a sua noção em Hannah ARENDT (Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil. Penguin Classics, 2006).

Abordando as noções de “genocídio” e “massacre administrativo”, afirma Arendt (2006, p. 232): “For the concept of genocide, introduced explicitly to cover a crime unknown before, although applicable up to a point is not fully adequate, for the simple reason that massacres of whole peoples are not unprecedented. They were the order of the day in antiquity, and the centuries of colonization and imperialism provide plenty of examples of more or less successful attempts of that sort. The expression ‘administrative massacres’ seems better to fill the bill. […] The phrase has the virtue of dispelling the prejudice that such monstrous acts can be committed only against a foreign nation or a different race. There is the well-known fact that Hitler began his mass murders by granting ‘mercy deaths’ to the ‘incurably ill’, and that he intended to wind up his extermination program by doing away with ‘genetically damaged’ Germans (heart and lung patients). But quite aside from that, it is apparent that this sort of killing can be directed against any given group, that is, that the principle of selection is dependent only upon circumstantial factors.”

Sobre o emprego da expressão “banalidade do mal”, assim afirma Arendt: “when I speak of the banality of evil, I do so only on the strictly factual level, pointing to a phenomenon which stared one in the face at the trial.” (ARENDT, 2006, p.231)

A mortandade de crianças e adolescentes palestinos, em consequência dos ataques do Estado de Israel nos territórios palestinos, revela simplesmente que a banalidade do mal pode emergir em qualquer parte, quando a dignidade da pessoa humana é factualmente violada, em função de interesses de qualquer ordem.

É imperativo reafirmar: que os acordos sejam cumpridos; que as forças de Israel desocupem todos os territórios palestinos; que ambos os Estados, israelense e palestino, sejam reconhecidos mutuamente; que Jerusalém seja a capital de ambos; que as ações do Hamas e do Estado de Israel sejam julgadas num tribunal internacional e os responsáveis por crimes comprovados, de ambas as partes, sofram as penas estabelecidas em julgamentos justos; que a paz reine na Palestina e Israel.


OBS: A fonte para o número de 11.500 menores palestinos mortos é: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxx5jw9kl46o

Economia de Libertação – Livro 1

Neste mês de dezembro ocorreu o pré-lançamento do Livro 1 da Economia de Libertação, em que fazemos uma Introdução Geral  à obra, que compõe sete volumes.

Visão Geral

A economia de libertação pode ser compreendida como prática econômica e como teoria econômica, que se retroalimentam como práxis de libertação econômica. Essas duas dimensões e sua necessária realimentação serão explicadas na parte inicial deste livro, em que tratamos de vários aspectos do paradigma da libertação. Entre eles, está o estratégico, relacionado à organização democrática de novas formações sociais e de novos modos, ecológicos e solidários, de produzir, intercambiar e creditar, que, por sua vez, se relacionam a formas de obter, apropriar, usar, investir e consumir os meios econômicos. Após explicitarmos a diferença entre libertação e liberação, e o que isso implica em relação às forças e aos meios econômicos, abordaremos os temas da acumulação e distribuição de excedentes, a passagem da economia do capital à economia de libertação e o tratamento dado a diferentes fontes teóricas e práticas no desenvolvimento dialógico dessa economia.

Uma vez explicitados, em linhas gerais, o paradigma e os horizontes desde os quais a reflexão é desenvolvida, avançaremos para um dos temas centrais desta Introdução: a passagem da economia do capital à economia de libertação.

Analisando o processo da reprodução ampliada do valor, que integra a sua produção e circulação, veremos que a liberação dos meios de intercâmbio é condição necessária para a libertação das forças produtivas. Sob o aspecto histórico, essa tese será argumentada com elementos depreendidos da crise das economias socialistas no século passado, explicitando as principais debilidades no modo como a libertação das forças produtivas foi nelas concebida sem dar maior importância à reorganização do sistema de intercâmbio econômico para a sua consecução, particularmente no âmbito internacional. De igual modo, trataremos das economias social, popular e solidária nos países capitalistas e, analisando seus fluxos econômicos, mostraremos como elas permanecem, em sua maioria, como economias de sobrevivência ou de resistência, retroalimentando a realização e a acumulação de lucros pelo capital. Mas veremos também que, em alguma medida, a economia solidária começa a ensaiar ações de libertação econômica que, sendo reorganizadas estrategicamente para avançar na libertação das forças produtivas, de intercâmbio e de crédito, podem progredir na constituição de sistemas econômicos solidários.

Pré-Venda

Nesse período de pré-venda, na quota do autor, o livro está com preço promocional em R$ 118,00 com o envio incluído (na Editora é R$ 156,00).  As compras com preço promocional podem ser feitas nesse link.  A entrega está prevista para meados de janeiro/2024. Uma amostra do livro pode ser lida aqui .

Coleção

O valor arrecadado com a venda do Livro 1 contribuirá para a publicação do Livro 2 e assim por diante.

Para informações, compras em maiores quantidades ou formas de contribuir na publicação do conjunto da obra, entre em contato pelo WhatsApp +5541996194393 ou pelo e-mail info@euclidesmance.net.

 

Lançamento: “Filosofia da Libertação – Histórico, vertentes, críticas e perspectivas”

No dia 12 de dezembro, às 19:00hs, ocorreu o lançamento do livro   “Filosofia da Libertação – Histórico, vertentes, críticas e perspectivas”, nesse link: https://fb.me/e/54NkIanEE. A obra está disponível para compra em dois formatos  impresso e e-book.

Ao longo do livro são analisados temas, problemas, desafios e concepções de filosofia da libertação. Décadas de reflexão filosófica e de elaborações em várias ciências particulares sobre a libertação, tomada como objeto de investigação e ação, foram nele organicamente sistematizadas, explicitando o Paradigma da Libertação.

A sua leitura permite acompanhar o desenvolvimento e as rupturas de vários autores no tratamento desse objeto, a transformação de suas categorias analíticas e estratégicas, a produção de conceitos e diferentes inovações teóricas por eles realizadas. Permite, igualmente, perceber como a conexão dialógica entre saberes científicos e saberes de experiência feitos, mediada pela educação popular, pode resultar em conhecimentos e valores historicamente validados no seio de comunidades humanas, necessários ao bom êxito das práxis de libertação dos indivíduos e das sociedades.

Nesse percurso pode-se aprender a arte de filosofar, de examinar exaustivamente um problema até conceber-se a transformação de uma categoria analítica ou estratégica, a geração de categorias novas ou mesmo o desenvolvimento de novas abordagens teórico-práticas para a sua resolução. Desse modo, problemas antigos e novos, que emergem na práxis dos seres humanos, encontram distintas soluções no transcorrer do livro, com vistas a realizar-se mais amplamente as liberdades individuais e coletivas em seu conjunto, de maneira ética e ecologicamente sustentável.

Em síntese, a filosofia a da libertação investiga diversos aspectos da práxis humana, buscando compor os resultados dessa investigação em torno do grande desafio da libertação constante de cada pessoa de tudo o que a nega, oprime e aliena, para que possa realizar o livre desenvolvimento de sua individualidade na convivência justa e solidária com outras pessoas, libertação que somente pode ocorrer no seio do livre desenvolvimento das comunidades humanas, pois os seres humanos se libertam em comunhão. Por isso, a filosofia da libertação sempre terá razão de existir, pois a liberdade humana jamais está completa ou plenamente realizada, havendo sempre a necessidade da crítica de tudo aquilo que, mesmo em nome da liberdade, promova a dominação,  a injustiça e a opressão.


 

 

Por que a Direita Liberal vota em Lula?

Euclides Mance
27/10/2022

A última pesquisa da  Quaest (1)  revelou que  24% dos eleitores de direita pretendem  votar em Lula no dia 30 de outubro.

A direita liberal e progressista, que defende a democracia e o Estado de Direito, a liberdade privada das pessoas e empresas, o respeito aos contratos, a liberdade de expressão, de pensamento e de opinião, liberdade de imprensa e religião, votará  em Lula no segundo turno de 2022.

Ao passo que a direita totalitária e retrógrada, que defende ditaduras e torturas, que usa a religião para fins políticos e nega a liberdade privada de expressão de quem pensa diferente, valendo-se para isso de ofensas, agressões e mesmo do  uso de armas , votará em Bolsonaro.

A direita liberal vota em Lula, por saber que não é com armas, granadas e fuzis que se constrói um país próspero e se realizam ganhos econômicos, mas com diálogos entre os diferentes, que resultam em acordos que são respeitados, em políticas públicas que asseguram a tranquilidade necessária para investimentos estratégicos de longo prazo, respeitando-se os interesses e direitos de quem investe e os interesses e direitos de quem trabalha.

Uma parte dos eleitores de direita está confusa, ao ver parcelas cada vez maiores da direita declarando publicamente votos em Lula.

Os eleitores de esquerda, por sua vez, têm a clareza de que o momento histórico exige uma composição ampla de forças para preservar a democracia, restabelecer a vigência dos direitos humanos e sociais  e a proteção ambiental em nosso país, direitos esses que o Estado brasileiro tem o dever de assegurar indistintamente a todos.

À parcela confusa dos eleitores de direita não custa pedir que no dia 30 de outubro, antes de dar seu voto, tenha consciência de que a direita liberal vota em Lula e não em Bolsonaro. Que embora a esquerda e a direita tenham programas políticos e econômicos diferentes, o cerne do que está em jogo nesse momento é a defesa da própria humanidade e dignidade de todos nós, perante a destruição das instituições e a degradação da sensibilidade das pessoas – degradação essa que evoca, ardilosamente, a repulsa do que há de mais hediondo para fortalecer um projeto de poder totalitário, que fraturou a sociedade brasileira.

É contra essa tragédia que a esquerda, o centro e a direita liberal se uniram neste segundo turno, reconhecendo suas diferenças na unidade de um desafio comum: evitar o aprofundamento da destruição de nosso próprio país.


Notas:
(1) EFRAIM, Anita. Quaest: 24% dos eleitores de direita votarão em Lula. 26 de outubro de 2022. Disponível em:   https://br.noticias.yahoo.com/quaest-24-dos-eleitores-de-direita-votarao-em-lula-121647136.html. Acesso em 27/10/2022

Perguntas a quem vota em Bolsonaro “em defesa de Deus, da Pátria e da Família”

Euclides Mance

28/09/2022

Eleitores de Bolsonaro, por favor,  reflitam um pouco e respondam, no silêncio de seu coração, a essas oito perguntas.

1. Vocês acreditam que Jesus, como filho de Deus, ensinou a amar e perdoar ou a ofender e agredir o próximo?

2. Vocês acreditam que promover a agressão com palavras e ações contra quem pensa diferente, levando pessoas a xingar, golpear e, até mesmo, a matar o próximo para defender a vitória de Bolsonaro, seria obra de Deus ou do Diabolus?

3. Se a bandeira nacional representa a Pátria, isto é, o país, seu território e a todo o seu povo, que integra indígenas, negros, brancos e demais brasileiros, independentemente de suas opções religiosas e políticas, não seria uma desonra usá-la para dividir a Pátria entre “nós” e “eles”, promovendo o desrespeito político e religioso contra uma parte dos próprios brasileiros que ela representa, simplesmente por pensarem diferente, votarem diferente e viverem de forma diferente?

4. Se a bandeira da Pátria é um símbolo da liberdade de todos os brasileiros, não seria uma desonra usá-la para negar a liberdade de uma parte do povo brasileiro em viver sua vida privada, sua religião e outras preferências próprias, nas esferas da política e da cultura, que não violam as liberdades públicas nem privadas dos demais, como acharem melhor?

5. Quem ama a Família não deveria defender todas as famílias que existem de fato, que unem as pessoas no amor, no compromisso em proteger e respeitar, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, o ser amado e os filhos biológicos ou adotados que esse amor verdadeiro acolhe como dons de Deus?

6. Defenderia a Família quem agride, desrespeita e tenta destruir as famílias dos outros, buscando impedir que os familiares dos outros tenham os mesmos direitos que os próprios perante a lei, simplesmente porque eles vivem o amor e o perdão, respeitando a dignidade da pessoa amada em sua diferença, não importando o sexo das pessoas que constituem as famílias?

7. Se o que resulta da “defesa de Deus, da Pátria e da Família”, proclamada por Bolsonaro, são rancores e hostilidades,  facadas e tiros disparados para matar pessoas, até dentro da igreja, em nome da defesa de Deus; são agressões e violências contra brasileiros e brasileiras, dividindo o país entre “nós” e “quem é contra nós”, em nome da defesa da Pátria; e a negação de famílias  que são formadas por pessoas que vivem o amor e o perdão no respeito mútuo, negando a elas os mesmos direitos legais de proteção à família, em nome da defesa da Família; então, não estariam  os seguidores e seguidoras de Bolsonaro a caminhar na direção oposta do Deus que ama e perdoa, da Pátria que une e acolhe, da Família que educa e protege?

8. Considerando tudo isso,  se você entende que não há outras opções válidas, não seria mais correto e sensato anular o seu próprio voto do que votar em Bolsonaro?

Por favor,  reflita um pouco e responda, no silêncio de seu coração, o que é o melhor a fazer, para proteger a convivência fraterna e democrática em nosso país: se é votar em Bolsonaro ou anular o seu voto.

Seis Perguntas aos Eleitores de Ciro Gomes

Euclides Mance

28/09/2022

Eleitores progressistas de Ciro Gomes, por favor,  respondam.

1. Vocês acreditam que Bolsonaro, após preparar-se para o debate promovido pelo SBT, não sabia o nome de um dos candidatos que ele enfrentaria naquela noite?

2. E se Bolsonaro tivesse esquecido tal nome, por que perguntaria isso a Ciro, esperando ser ajudado por ele, e não à sua própria assessoria ou ao mediador do debate? 

3. Vocês acreditam que, em quatro dias, metade dos eleitores de Bolsonaro migrará para Ciro, se até mesmo no Ceará a sua intenção de voto diminuiu?

4. Vocês acreditam que a violência de bolsonaristas, que já eliminou a vida de quatro pessoas que pensavam diferente deles, vai desaparecer ou aumentar em caso de haver segundo turno?

5. Vocês acreditam que mergulhar o país no acirramento do ódio fascista num segundo turno, à mercê dos desvarios golpistas de Bolsonaro, que exerce “alguma influência” sobre uma parte dos 673 mil civis, legalmente armados na condição de caçadores, atiradores esportivos e colecionadores, que possuem juntos mais de um milhão de armas e um estoque desconhecido de munições, é o melhor que vocês podem fazer pelo Brasil?

6. Dada a situação atual, não lhes parece mais sensato e progressista votar em Lula já no primeiro turno?

Liberdade de Expressão e Responsabilidade na Comunicação

Euclides Mance.
30/04/2022

Quando você recebe uma mensagem compartilhada, afirmando ou exibindo algo como verdadeiro, você tem o direito de saber:

1. Quem é o autor da mensagem original que lhe foi repassada e quando e onde ela foi publicada pela primeira vez;
2. Se o conteúdo é uma montagem de textos, áudios e imagens ou não;
3. Com base em quê se pode afirmar que o conteúdo compartilhado é verdadeiro.

Se quem lhe enviou a mensagem não for capaz de responder a essas três questões básicas, talvez seja melhor não repassar essa mensagem a terceiros.

E se essa mesma pessoa lhe encaminhar várias mensagens assim, que ela não sabe quem escreveu ou produziu, quando foi escrito ou gravado nem onde foi  originalmente publicado, que ela não sabe se são montagens de textos, áudios e imagens ou não, que ela não sabe como comprovar se são verdadeiras ou falsas, desconfie logo que talvez ela seja uma pessoa ingênua, de boa-fé mas mal-informada; ou que talvez ela esteja sendo usada por alguém ou algum grupo mal-intencionado que a induz ao erro por algum motivo; ou, pior ainda, que talvez ela própria esteja mal-intencionada querendo induzi-lo a acreditar em algo que nem ela mesmo sabe como provar que é verdadeiro.

Quando você recebe mensagens que geram dúvidas sobre algo relevante, é sempre importante compartilhar essas dúvidas sobre o assunto, procurando se informar melhor sobre ele a fim de formar sua própria opinião a respeito dele.

Mas evite compartilhar com terceiros mensagens que fazem afirmações sem mostrar  como elas foram comprovadas e podem ser confirmadas, especialmente se forem sobre a reputação alheia.

Lembre-se que na boa comunicação, após ler uma matéria ou mensagem bem elaboradas sobre algo que tenha acontecido, você é capaz de identificar o que aconteceu, quem estava envolvido, quando, como, onde, porque, com que meios e de que modo aquilo ocorreu. E obtém ainda os dados necessários para confirmar, de maneira independente, as informações recebidas e aprofundar o seu próprio conhecimento a respeito do assunto!

Não esqueçamos jamais que a liberdade de expressão e a responsabilidade na comunicação são, respectivamente, um direito e um dever de todos.

“Sapientiam Autem Non Vincit Malitia” – Sobre o Autoengano na Arte de Argumentar

Euclides Mance
22/02/2022

É necessário reconhecer que Olavo de Carvalho, com suas teses e seus argumentos, numa extensão a ser ainda dimensionada, não apenas enganou a muitos como enganou a si próprio, se realmente foi sincero em suas afirmações publicadas.

A história nos mostra que pessoas com bons propósitos em defender a liberdade, a família e a pátria, mas que deixam de distinguir entre os conceitos objetivos (cuja consistência é verificável pelo exame indicial dos objetos) e as representações imaginárias das realidades que nomeiam com esses termos, são suscetíveis a levar-se pelo autoengano quanto mais a ele se entregam, confundindo a realidade mesma com a interpretação que dela fazem. Terminam, por fim, negando as propriedades reais dos objetos abordados em seus argumentos, para seguirem afirmando a verdade de suas crenças, fantasias e ilusões sobre eles.

Exemplo disso é o que Carvalho escreveu em sua conta no Twitter em 12 de maio de 2020: “O medo de um suposto vírus mortífero não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-la aceitar a escravidão como um presente de Papai Noel”. A realidade dos fatos, entretanto, é que ele próprio morreu em 24 de janeiro de 2022, após receber o diagnóstico de Covid-19 no dia 15 daquele mês, não obstante acreditasse ter sido “[…] dotado da capacidade de fazer prognósticos históricos relativamente certos, não por adivinhação, nem por dons proféticos, mas por análise histórica muito bem fundamentada” (CARVALHO, 2007, 17m41s).

Qual seria, então, a falha de seu método de análise histórica para não reconhecer que o Coronavírus era realmente letal, que mais de 300 mil pessoas haviam morrido de Covid-19 no mundo todo até então, de acordo com as estatísticas oficiais, em meio a uma pandemia em expansão que poderia levar a óbito milhões de seres humanos se medidas sanitárias para prevenir o contágio não fossem adotadas? De fato, até a data de seu falecimento, mais de 5 milhões de pessoas haviam perdido a vida para essa doença.

Com base em seu livro O Jardim das Aflições e na aula 579 de seu Curso Online de Filosofia, pode-se afirmar que Carvalho leu superficialmente diversos livros e artigos, pinçando neles aquilo que lhe servia para confirmar suas convicções imaginárias sobre os objetos de seu discurso. E, ao que parece, não se deu ao trabalho de verificar com cuidado as fontes e os procedimentos de validação científica do que recolhia como verdadeiro, simplesmente pelo fato de tais acúmulos encontrados serem consonantes às suas sinceras convicções – como também parecem fazer os seus “discípulos” a respeito de suas próprias crenças. Disso não escapou o seu juízo sobre a Covid-19.

Para exemplificar o que digo sobre a ausência de verificação de fontes, levando-o a falsear a história do objeto sobre o qual argumenta, basta citar o famoso lema de seu site: “Sapientiam Autem Non Vincit Malitia” – “sobre a Sabedoria não prevalece o mal”. Em artigo publicado em O Globo, em 2003, intitulado a Velha Lenda, Carvalho (2003, n.p.) afirmou que “o apóstolo são Paulo” é o “autor” dessa máxima.

Talvez ele tenha morrido acreditando sinceramente nisso, sem questionar a veracidade do que afirmava convicto como verdadeiro. Mas, de fato, São Paulo não é o autor dessa frase, que pode ser encontrada já no Antigo Testamento, no livro da Sabedoria (Sb 7,29-30):

est enim haec speciosior sole et super omnem stellarum dispositionem luci conparata invenitur prior // illi enim succedit nox sapientiam autem non vincit malitia. (Ela é mais bela que o sol, supera todas as constelações: comparada à luz do dia sai ganhando, // pois a luz cede lugar à noite, ao passo que sobre a Sabedoria não prevalece o mal.)

Embora atribuído a Salomão, estudos históricos mostram que o livro da Sabedoria, em que essa passagem se encontra, teria sido escrito na segunda metade do século I antes de Cristo, não podendo portanto ser de sua autoria e muito menos do “apóstolo são Paulo”.

Aliás, poucas linhas antes dessa frase, como elogio da Sabedoria, afirma-se que “nela há um espírito […] benfazejo, amigo dos homens, firme, seguro, sereno” (Sb 7,22) – muito distante, pois, do discurso de rancor alimentado pela obra de Carvalho e que reverbera em seus seguidores.

A Sabedoria, continua a passagem bíblica, é “um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus e uma imagem de sua bondade” (Sb 7,26). Ora, que bondade haverá em destratar, ofender e insultar a quem pense diferente de si mesmo, com diversas classes de impropérios a que se possa recorrer no léxico do baixo calão? Seria o discurso de ódio, propagado por Carvalho e por seus seguidores contra adversários políticos, “um reflexo da luz eterna”, um “espelho” da “atividade de Deus”, coerente com a máxima “sapientiam autem non vincit malitia” adotada como lema de seu site?

As afirmações de Carvalho sobre a infiltração do comunismo na Igreja Católica e sua representação do comunismo como “a tentação final que completa uma descida ao inferno” (2007, 16m58s) são igualmente uma espécie de negacionismo histórico do próprio comunismo cristão, descrito nos Atos dos Apóstolos, em seu aspecto material, como ter tudo em comum e dividir os bens segundo as necessidades de cada um:

Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam o produto entre todos, segundo a necessidade de cada um. […] Tudo era comum entre eles. […] Não havia entre eles indigente algum, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade (At 2,44-45; 4,32; 4,34-35).

O famoso lema do comunismo – “de cada um segundo a sua capacidade e a cada um segundo a sua necessidade” – reelaborado por diferentes autores, remonta, em uma de suas vertentes, a essa comunidade dos primeiros cristãos.

Aliás, sobre o que Carvalho chama de “descida ao inferno”, o que Jesus afirmou e mais se aproxima disso, segundo os Evangelhos, foi:

Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. […] Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,34-40).

Em outras palavras, os “malditos” iriam para o “fogo eterno” justamente por não terem dividido o que era seu “segundo a necessidade de cada um” dos “mais pequeninos”, isto é, por não terem acolhido, na condição de seus “irmãos”, as pessoas em suas carências, sofrimentos e infortúnios, tais como a fome, a sede, a falta de abrigo, de roupas, de medicamentos e cuidados ou a privação da liberdade.

Assim, a despeito das convicções de Carvalho sobre o assunto, a deformação não parece ser a infiltração do comunismo no cristianismo ou na Igreja Católica mas o surgimento histórico de um cristianismo que nega o seu comunismo originário, tão claramente descrito nos Atos dos Apóstolos, e que foi uma das fontes inspiradoras do próprio surgimento do comunismo moderno.

A menos que, para Carvalho, seus discípulos e outros negacionistas, ter tudo em comum e dividir os bens entre todos segundo as necessidades de cada qual, como claramente o texto bíblico descreve a forma social de convivência dos primeiros cristãos, não sejam características essenciais de um modo de realização histórica do próprio comunismo.

De fato, o comunismo moderno – na maior parte de suas vertentes – é menos radical que o comunismo dos primeiros cristãos, pois não propõe que se deva ter tudo em comum e sim que apenas os meios econômicos de produção, de circulação e de crédito sejam de propriedade comum, em alguns casos como propriedade social de comunidades autogestionadas e, em outros casos, como propriedade pública.

É importante salientar que os documentos papais citados por Carvalho, em seu argumento, para combater o comunismo indistintamente, referem-se entretanto a uma determinada empostação desse sistema econômico, denominado no próprio título da encíclica Divinis Redemptoris, do Papa Pio XI, como “comunismo ateu”. Pelas leituras que fez de Aristóteles, Carvalho devia saber a distinção entre gênero e diferença específica. Sabia, pois, ser um sofisma estender ao conceito de comunismo em geral o que se aplica nos documentos eclesiásticos ao comunismo ateu e materialista em particular.

Cabe recordar que a Igreja Católica, em seus documentos oficiais, condena tanto a planificação centralizada no comunismo ateu como também a absolutização da lei do mercado no capitalismo: “Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, ‘porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado’” (Catecismo Católico, 2022b, § 2425). E assevera que “uma teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da atividade econômica, é moralmente inaceitável.” (Catecismo Católico, 2022b, § 2424)

Ante ambos os sistemas, na própria encíclica Divinis Redemptoris, mencionada por Carvalho, é feita a defesa da chamada Economia Social, nos mesmos termos de outra encíclica, a Quadragesimo Anno, de 1931:

A economia social estará solidamente constituída e obterá seus fins, só quando a todos e a cada um forem subministrados todos os bens que se podem conseguir com as forças e subsídios naturais, com a técnica, com a organização social do fator econômico. Esses bens devem ser em tanta quantidade, quanta é necessária, assim para satisfazer às necessidades e honestas comodidades, como para elevar os homens àquela condição de vida mais feliz, que, obtida e gozada de modo regrado e prudente, não só não é de obstáculo à virtude, mas até a favorece poderosamente. (Encíclica Quadragesimo Anno, apud PIO XI, 1937, § 52).

E, em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras, asseverou o Sumo Pontífice nesse mesmo parágrafo:

Não se pode, porém, dizer que se satisfez à justiça social, se os operários não têm assegurada a sua própria sustentação e a de suas famílias com um salário proporcionado a este fim; se não se lhes facilita o ensejo de adquirir uma modesta fortuna, prevenindo assim a praga do pauperismo universal; se não se tomam providências a seu favor, com seguros públicos e privados, para o tempo da velhice, da doença ou do desemprego. (PIO XI, 1937, § 52).

Contudo, que o Poder Público favoreça o desenvolvimento de uma Economia Social, voltada a produzir com abundância e a subministrar “a todos e a cada um” “todos os bens” que atendam às suas “necessidades” e “honestas comodidades” e a elevar os “salários” para que os trabalhadores e trabalhadoras possam, como resultado de seu próprio trabalho, atender a estas necessidades e comodidades e a “adquirir uma modesta fortuna”, com base no princípio ético de que o lucro não pode ser o fim último da atividade econômica”, e que o Estado implemente políticas públicas de seguridade social, voltadas às pessoas que se encontrem na “velhice” ou em situação de “doença”, “desemprego”, extrema pobreza ou de insegurança alimentar, é algo combatido pelos seguidores de Carvalho como orientações comunistas que estariam sendo infiltradas na Igreja Católica, quando na verdade são medidas preconizadas pela própria doutrina oficial dela mesma, explicitada nos documentos que eles mesmos citam em seu combate ao comunismo, mas parecem não ter lido com atenção.

De fato, em sua argumentação, unindo fragmentos dispersos de suas leituras com fantasias totalizantes, Carvalho (2015) dá a entender que o “comunismo” estaria sendo imposto globalmente com base num método de manipulação de massas, valendo-se de “meios de subjugar a mente humana” (p.61) compondo um arsenal de técnicas que teriam sido desenvolvidas no século XX com a participação de “governos, partidos políticos, organizações religiosas e pseudo-religiosas, empresas e sindicatos” (p.61) que envolveriam diferentes técnicas, como “reflexos condicionados, lavagem cerebral, guerra psicológica, influência subliminar, controle do imaginário, engenharia comportamental, informação dirigida, Programação Neurolinguística, hipnose instantânea, estimulação por feromônios […]” e outras mais (p.61).

A sua crença no amplo emprego dessas técnicas por esses diferentes atores, leva Carvalho (2015, p.63) a se perguntar se

seria concebível que populações submetidas incessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito tempo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo da demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada, estonteada, ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de autoengano?

Ao compor o seu mosaico, escolhendo em diferentes estudos, pesquisas e outras fontes as peças que melhor se encaixam para fazer surgir a figura que deseja, conclui Carvalho (2015, p.79-80) que:

1. Pode-se mudar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). // 2. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios, a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil, crédula e dependente (Sargant). // 3. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares, sem que a vítima se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). // 4. A técnica pode ser aplicada simultaneamente a todos os membros de uma coletividade, desde que se sintam cortados de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. // 5. O fator decisivo é o controle planejado do fluxo de informações, que pode ser realizado à distância (IBM). // Não é preciso enfatizar as facilidades que, hoje em dia, a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade oferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional, continental ou planetária.

Mas com base em quê Carvalho saberia não incorrer em erro, em autoengano, ao afirmar algo como verdadeiro se, em alguma medida, também ele estaria afetado por esses fluxos de informação que teriam nele desencadeado reações que o levaram à escrita do próprio livro O Jardim das Aflições? Uma resposta a essa pergunta está na aula 579 de seu Curso, em que afirma o seguinte:

a sinceridade é a base da inteligência. A inteligência é a capacidade que o ser humano tem de captar a verdade. Você não pode captar nenhuma verdade sobre a sociedade humana sobre a história ou mesmo sobre as ciências se você não é capaz de captar a sua própria verdade. E a sua própria verdade se traduz na narrativa que você faz dos fatos internos e externos da sua vida para você mesmo e para o próprio Deus. Porque Deus é o observador onisciente que não permite que você se engane. (CARVALHO, 2007, 54m45s).

Assim, segundo Carvalho, se for realmente sincera a relação do indivíduo para com Deus, Deus não permitirá que o indivíduo se engane em sua narrativa e, portanto, sua narrativa será verdadeira. Desse modo, não poderia haver o autoengano do sujeito, ao defender a verdade de sua narrativa, pois Deus, como observador onisciente, não permitiria que o sujeito se enganasse a si próprio em sua relação sincera para com ele.

Em síntese, em última instância, haveria um fundamentalismo religioso subjetivista para o asseguramento da verdade das narrativas dos que têm por missão, entre outras coisas, não apenas salvar o país, mas também a Igreja, do comunismo.

Explicando que a confissão sincera seria a técnica basilar do aprendizado e da filosofia, Carvalho associa esse presumido modo de obter a verdade à expressão bíblica de que “Abrahão caminhava diante de Deus”:

Abrahão estava consciente de que Deus sabia o que ele estava fazendo, o que ele estava pensando e que Deus sabia mais sobre ele do que ele mesmo. Portanto, na medida em que ele se abrisse para Deus, ele não ia mostrar para Deus só aquilo que ele sabia de si mesmo, mas aquilo que o próprio Deus estava lhe revelando dele mesmo nessa mesma hora. (CARVALHO, 2007, 55m20s).

E conclui o argumento afirmando:

quando você conta a sua vida para Deus, Deus conta para você muito mais sobre você mesmo do que você poderia contar para ele. Então, a sinceridade e, portanto, a confissão é a técnica do aprendizado, é a técnica fundamental da filosofia. (CARVALHO, 2007, 55m43s).

Em resumo, no momento da confissão sincera, como “técnica filosófica”, a pessoa tomaria consciência daquilo que Deus lhe revelaria como verdade a respeito de si mesma e de sua realidade.

Percebe-se, por esse argumento, que Carvalho utiliza a expressão “técnica filosófica” de modo indevido, pois a filosofia não valida afirmações ou negações recorrendo a técnicas que lhe deem acesso a revelações divinas sobre os objetos da sua argumentação. Pelo contrário, coloca à prova da razão as crenças e mitos, sopesando a validade das teses e argumentos no plano racional.

Como afirma a Declaração de Paris para a Filosofia, redigida e aprovada no Encontro Internacional sobre Filosofia e Democracia no Mundo, promovido pela UNESCO em 1995,

a atividade filosófica, que não subtrai nenhuma ideia à livre discussão, que se esforça em precisar as definições exatas das noções utilizadas, em verificar a validade dos raciocínios, em examinar com atenção os argumentos dos outros, permite a cada um aprender a pensar por si mesmo (Declaración…, 1995, p.19).

Justamente por isso, “o ensino de filosofia favorece a abertura do espírito, a responsabilidade cívica, a compreensão e a tolerância entre os indivíduos e entre os grupos” (p.19) e não o contrário. Para tanto, o ensino da filosofia “deve ser assegurado por professores competentes, especialmente formados para esse fim, e não pode estar subordinado a nenhum imperativo econômico, técnico, religioso, político ou ideológico” (p.20).

Sublinha igualmente o documento que

[…] a educação filosófica, formando espíritos livres e reflexivos – capazes de resistir às diversas formas de propaganda, de fanatismo, de exclusão e de intolerância – contribui para a paz e prepara cada um a assumir suas responsabilidades face às grandes interrogações contemporâneas, notadamente no domínio da ética (Declaración…, 1995, p.20).

Carvalho, entretanto, denomina por filosofia algo diverso. Ele associa seus seminários de filosofia a uma forma de apostolado leigo, como atividade cristã, política e intelectual, que criaria uma “nova cultura brasileira”, assentada em verdades alcançadas mediante a confissão sincera, e que se superporia ao que ele denomina como falsa cultura existente:

fazer da prática da sinceridade interior a base da autoeducação, esta era e é a norma central do Seminário de Filosofia. […] A atividade intelectual assim concebida é uma atividade voltada para a salvação de um país que está se desgraçando. É a qualificação de pessoas para o exercício de uma função de emergência. Portanto, é uma educação para pessoas que estão dispostas a entrar nisso com verdadeiro espírito missionário. […] O que nós precisamos nesse seminário são pessoas que têm uma noção da altíssima missão da vida intelectual. Entendem que ela é nada mais nada menos do que apostolado leigo. […] Ela é parte da atividade cristã. […] Não é porque não estou falando em linguagem de Bíblia, em linguagem religiosa, que a minha atividade não é apostolado. É apostolado sim, meus filhos. […] A salvação desse país depende muito mais desta atividade do que a atividade formalmente religiosa que muitos estão desempenhando. […] Aqui estamos praticando a arte da verdadeira descoberta de si e da verdadeira confissão. Este é o espírito da filosofia e sobretudo da filosofia cristã. E sem isso você não é absolutamente nada. Se vocês querem se inspirar leiam os pensamentos de Pascal e as Confissões de Santo Agostinho […] ou então os Diálogos de Sócrates. E vocês vão entender que a sinceridade, quer dizer, a capacidade de você declarar o que realmente sabe, o que realmente você está percebendo […], e você conseguir raciocinar a partir da realidade e não de palavras ouvidas, é a base da filosofia. […] Isso é uma disciplina de vida, isso é uma norma moral. […] Tão logo você tiver acendido a luz da sua consciência e a luz da sua consciência tenha iluminado a parcela da realidade e você esteja em condição de verbalizar isto, não de dar opinião mas de verbalizar uma efetiva experiência interior da realidade, nós teremos criado uma nova cultura brasileira e ela se superporá a essa falsa cultura automaticamente, […] sem nenhum esforço de propaganda (CARVALHO, 2007, 56m07s).

Em síntese, parece tratar-se de uma espécie de retorno a teses do chamado tradicionalismo filosófico do século XIX, que surgiu como recurso de forças reacionárias em seu enfrentamento das vertentes do pensamento moderno. Nele argumenta-se que a revelação é a fonte primordial do conhecimento, buscando com isso reafirmar teses peculiares ao senso comum tradicional, que seriam expressão autêntica da verdade, pois teriam por origem a primitiva revelação feita pelo Criador ao ser humano no momento de sua criação. Como a revelação seria a fonte do conhecimento, o afastamento dessa verdade seria uma fonte de erro.

Frei Antonio Itaparica (apud Paim, 2007, p.136), arauto dessa concepção, interroga em seu Compêndio de Filosofia Elementar, publicado em 1852:

Quando em vez de divagar ou estranhar-se em um mare magnum de doutrinas ou sonhos dissolventes, subversivos e perigosíssimos ao gênero humano, há de ela conduzir-se pelo farol da Revelação?

Assim, se a maioria dos “missionários”, formados por Carvalho, que teriam se colocado diante de Deus em sua “confissão” com “sinceridade”, afirmar uníssona em alguma rede social uma mesma narrativa sobre a sociedade, essa concordância coletiva confirmaria que tal narrativa estaria validada em sua verdade, pois Deus, onisciente, não permitiria que uma multidão de pessoas sinceras, que se colocaram honestamente diante dele buscando a verdade de si mesmas e dos fatos exteriores que afetam a sua vida, se autoenganasse coletivamente.

Esse tipo de fundamentalismo religioso, realimentado em sistemas de rede, costuma derivar em formas de agressão verbal, intolerância e outros tipos de violência contra pessoas e instituições que são consideradas adversárias religiosas, políticas e culturais a serem combatidas em nome da salvação do país, da família, da liberdade, da cultura e, particularmente, na defesa da religião própria, que estaria ameaçada por diferentes atores que pensam e vivem de modo dissonante aos valores e condutas defendidas por esses “missionários” em seu “apostolado leigo”.

Se Olavo de Carvalho considerava verdadeiro ou não o que dizia sobre os objetos de seu discurso, não há como saber.

Se não dava por verdadeiro o que afirmava como certo ao conduzir os outros ao engano, não haveria nisso autoengano de sua parte, mas cinismo, movendo a conduta alheia para a realização de objetivos e interesses dele próprio ou de redes políticas, religiosas e de outras ordens com as quais colaborava.

Se ele criou um personagem público de si mesmo, ajustando o seu perfil e conduta nas redes sociais para atrair a mais de um milhão de seguidores, que seria diferente de sua própria personalidade real, no modo de viver a sua vida privada e administrar seus afazeres, somente as pessoas de seu convívio íntimo poderão dizer.

Se para ampliar e fidelizar seu público ele usou uma ou mais das técnicas do “lava-rápido cerebral” que combatia em seu discurso (CARVALHO, 2015, p.75s), somente estudos específicos poderão concluir.

Mas se, por hipótese, houve sinceridade de sua parte ao realizar as afirmações aqui analisadas, cabe repetir que Olavo de Carvalho não apenas enganou a muitos, como enganou a si próprio, com a sua interpretação subjetivista de “sapientiam autem non vincit malitia”. Na prática, não poucos seguidores seus – que tenham adotado o negacionismo sobre a letalidade do Coronavírus, inspirados na técnica que ele propôs de como chegar à compreensão verdadeira de si e dos fatos, crendo colocar-se sinceramente na presença de Deus e, por isso mesmo, possuir uma verdade revelada e incontestável a respeito dessa pandemia – podem ter morrido de Covid-19 ou estar a sofrer atualmente sequelas dessa doença.

Assim, contrariamente ao que afirma o lema por ele adotado, o mal dessa presunção sincera de possuir verdades reveladas que contradizem a ciência acabou por vencer a própria sabedoria com a adoção de um método eficaz de autoengano.

Carvalho parece ter negligenciado que, na doutrina do catolicismo evocada por ele em sua aula 579, a fé e a ciência se complementam. Como afirma o § 159 do Catecismo Católico (2022a), recuperando passagens dos Concílios Vaticano I e II:

«Muito embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver verdadeiro desacordo entre ambas: o mesmo Deus, que revela os mistérios e comunica a fé, também acendeu no espírito humano a luz da razão. E Deus não pode negar-Se a Si próprio, nem a verdade pode jamais contradizer a verdade» […]. «É por isso que a busca metódica, em todos os domínios do saber, se for conduzida de modo verdadeiramente científico e segundo as normas da moral, jamais estará em oposição à fé: as realidades profanas e as da fé encontram a sua origem num só e mesmo Deus. […]»

Por fim, cabe salientar que o conceito de autoengano é bastante controverso no campo da filosofia. Conforme a Stanford Encyclopedia of Philosophy, ele caracteriza a ação de

[…] uma pessoa que parece adquirir e manter alguma crença falsa diante de evidência em contrário e que o faz em consequência de alguma motivação, podendo exibir um comportamento que sugere alguma consciência da verdade (DEWEESE-BOYD, 2021, n.p.).

Com isso a pessoa nega ou considera como irrelevante qualquer prova ou argumento lógico em contrário daquilo em que acredita, convencendo-se de possuir uma verdade que, de fato, não possui, para não reconhecer o próprio engano de sua crença.

Não se trata de uma mentira, pois nesse caso a pessoa saberia que está mentido. No autoengano ela, inconscientemente, toma como verdadeiro algo que é falso e, mantendo a consonância cognitiva de suas crenças com respeito ao objeto dessa falsa verdade, recusa a validade de qualquer argumentação em contrário, negando a validez do que seja apresentado em defesa de posição adversa.

A depender do grau de autoengano, a pessoa chega a acreditar plenamente em fenômenos inexistentes, ensejando com isso, entretanto, a satisfação de desejos e fantasias suas a respeito deles.

Não se trata, portanto, apenas de um problema de natureza filosófica, podendo ser igualmente um problema de natureza psíquica a requerer tratamento adequado para que a pessoa possa recuperar a distinção perdida entre a realidade e a fantasia a respeito dela.

Referências Citadas

CARVALHO, Olavo. Velha lenda. In: O Globo. 01/11/2003 Disponível em: https://olavodecarvalho.org/velha-lenda/. Acesso em: 21/02/2022

CARVALHO, Olavo. O Jardim das Aflições. 3a. Edição. Campinas: Vide Editorial, 2015. [Edição Eletrônica] Disponível em: https://www.academia.edu/36925194/O_Jardim_das_Aflicoes_Olavo_de_Carvalho. Acesso em 20/02/2022

CARVALHO, Olavo. Uma Mensagem para Alunos e Leitores – Aula 579 do COF, 2007. Acesso em: https://www.youtube.com/watch?v=fP3D6IV2e78 Disponível em: 20/02/2022

“Declaración de Paris por la Filosofía”. In: DROIT, Roger Paul. Filosofía y Democracia en el Mundo. Ediciones UNESCO, Ediciones Colihue, 1995, p.1

DEWEESE-BOYD, Ian. Self-Deception. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2021. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/sum2021/entries/self-deception/ . Acesso em 20/02/2022

Catecismo da Igreja Católica. Primeira Parte – A Profissão da Fé. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c3_142-184_po.html. Acesso em: 19/02/2022a

Catecismo da Igreja Católica. Terceira Parte – A Vida em Cristo. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html Acesso em: 19/02/2022b

PAIM, Antonio. História das Ideias Filosóficas no Brasil. 6ª Ed. Revista – Vol. II – As Correntes. Londrina: Edições Humanidades, 2007

PIO XI, Papa. (1937) Carta Encíclica Divinis Redemptoris […] Sobre o Comunismo Ateu. Disponível em: https://www.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19370319_divini-redemptoris.pdf Acesso em: 19/02/2022

A Banalidade do Mal e a Responsabilidade Bolsonarista pelo Atual Genocídio no Brasil

Euclides Mance

19/05/2021

A expressão banalidade do mal foi usada por Hannah Arendt ao referir-se, em nível estritamente factual, à conduta do tenente-coronel nazista Adolf Eichmann, que colaborou no planejamento da deportação e transporte de judeus, comunistas, ciganos, eslavos e homossexuais, entre outros grupos, para campos de concentração e, por fim, na “solução final” do seu envio a campos de extermínio, para serem mortos em câmaras de gás.

Arendt tratou, conjuntamente, do conceito de genocídio e da extensão de sua aplicação a esses e a outros fatos, posto que os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas não eram apenas contra raças diferentes, mas também contra grupos específicos, como o dos doentes incuráveis”, que incluía mais de 200 mil alemães, entre os quais os considerados “geneticamente deteriorados (pacientes cardíacos e pulmonares)”[1], que foram igualmente mortos.

A atitude de Eichmann durante seu julgamento em Jerusalém, sua linguagem, clichês e argumentos, o caracterizavam como um cidadão comum, um funcionário dedicado que, buscando ascender em sua carreira, teria se limitado a cumprir ordens, não se sentindo responsável pelas consequências do que ele próprio implementara com suas ações, pois não teria infringido lei alguma na realização de seu trabalho e, pessoalmente, nunca teria maltratado ou matado algum judeu. [2]

Em certo sentido, a banalidade do mal, que permeia a atitude de Eichmann com respeito às consequências de seus atos, é, em sua generalidade, latente nas sociedades massificadas, em que surge uma multidão de seres vazios de pensamento, marcados pela superficialidade e irreflexão, que se portam como incapazes de realizar julgamentos morais sobre as consequências de suas próprias condutas, limitando-se a cumprir ordens ou a seguir referências que eles aceitam sem qualquer questionamento.

Desdobrando esse argumento e a aplicação desses conceitos, pode-se afirmar que a banalidade do mal está latente no bolsonarismo e que ela se manifesta especialmente na atitude dos bolsonaristas em negar o genocídio do qual são cúmplices, agindo como se fossem zelosos defensores da liberdade e da moral, seguindo as orientações de seu líder maior. A banalidade do mal se revela cristalina na frase do, então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello:Senhores, é simples assim: um manda e o outro obedece!”[3].

Dividindo o mundo entre “nós (os bolsonaristas)” e “eles (os esquerdistas, corruptos, comunistas, etc.), os bolsonaristas não problematizam as orientações recebidas de seus líderes políticos ou religiosos e negam a validade de qualquer informação, advinda de fontes estranhas ao seu mundo, que contradiga às suas convicções. Numa entrevista à Rádio Guaíba, por exemplo, em abril de 2020, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou: “A verdade está aparecendo aí: a hidroxicloroquina funciona, essa quarentena foi precipitada, não tá aparecendo a pilha de mortos que tinham falado que iria aparecer”. [4]

Engajados em sua guerra contra os supostos inimigos do Brasil, de Deus e da família, os seguidores e comandados nas fileiras bolsonaristas, justamente por que negam “outros”, tidos como seus inimigos, reafirmam as suas convicções grupais de pertencimento ao “nós” de seus coletivos, de suas redes e comunidades, que gravitam em torno de seu líder e da identidade opositora e negadora que ele representa. Rejeitando a sensatez e a razão alheias, mergulham em convicções emocionalmente empoderadas, cultivadas e retroalimentadas nessas redes sociais de comunicação e de ação [5]. Embora se considerem os salvadores do país e a reserva moral da pátria, embora imaginem combater a corrupção e defender as liberdades individuais e o mercado contra o comunismo e o Estado, cabe reafirmar que sua participação no genocídio em curso em nosso país necessita ser investigada, apurada e punida no rigor da lei. Pois não poderão eximir-se de suas responsabilidades ao invocar, em sua defesa, a pseudoignorância do resultado de suas ações ou o mero cumprimento de ordens ou diretivas de seus líderes políticos e religiosos.

E para que não restem dúvidas a nenhum bolsonarista sobre a extensão do genocídio a que eles conduziram o Brasil, pode-se usar a sua linguagem e a escala de Weintraub para, absurdamente, abordar o crescimento da “pilha de mortos” ao longo da pandemia, tomando por referência o comprimento de dois metros de uma urna mortuária padrão, verticalmente disposta e justaposta às demais – o que, considerando os 430 mil óbitos de Covid-19 ocorridos no Brasil até aqui, resulta numa altura de 860 km. E para que se tenha uma noção concreta do que significa essa altura abstrata, analisaremos a sua proporção em relação à altura da atmosfera de nosso planeta.

A figura abaixo mostra as diferentes faixas da atmosfera terrestre. Para além dela está o espaço exterior. Destacaremos cinco momentos na evolução dessa tragédia brasileira, repleta de dor, angústia e sofrimento, considerando o número totalizado de mortos pela Covid-19 alcançado no país ao longo da pandemia [6] e a que altura chegaria a correspondente “pilha de mortos” que Bolsonaro e seus cúmplices ajudaram a produzir, na emissão ou cumprimento de ordens, protocolos e orientações recebidas, na mais plena expressão da “banalidade do mal”.

Fonte: Mundo Educação [7]

No dia 5 de maio de 2020, o Brasil ultrapassou a marca 7.500 mortes acumuladas por Covid-19, o que corresponde a uma altura de 15 km de urnas mortuárias sobrepostas, distância que alcança o limite da troposfera. É nessa faixa da atmosfera em que voam os aviões.

Em 27 de maio de 2020, o país ultrapassou a 25 mil mortes acumuladas, o que corresponde a 50 km de urnas mortuárias sobrepostas, altura que alcança o limite da estratosfera, onde estão os balões meteorológicos.

No dia 11 de junho de 2020, o número totalizado de mortos por Covid-19 em nosso país chegou a 40 mil, o que corresponde a 80 km de urnas mortuárias sobrepostas, altura que atinge o limite da mesosfera. Nessa faixa da atmosfera os meteoros que impactariam a Terra tornam-se incandescentes, visíveis como estrelas cadentes, e vão perdendo massa até se desintegrarem completamente ou converterem-se em meteoritos.

No dia 25 de fevereiro de 2021 o Brasil alcançou a marca de 250 mil mortos, o que corresponde a uma altura de 500 km de urnas mortuárias sobrepostas, distância que alcança a faixa da termosfera. É nessa faixa da atmosfera que se encontra a Estação Espacial Internacional, posicionada a uma altura de aproximadamente 410 km.

Por fim, no dia 29 de abril de 2021, chegamos a 400 mil vidas perdidas para a Covid-19, o que corresponde a uma altura de 800 km de urnas mortuárias sobrepostas. Ou, no linguajar de Weintraub, a 800 km de altura na “pilha de mortos” que o presidente da República e seus seguidores ajudaram a produzir. Essa altura corresponde aproximadamente ao limite da exosfera, faixa onde orbitam os satélites artificiais de nosso planeta, como o telescópio Hubble, posicionado a 600 km de distância em relação à superfície da Terra, sendo essa a camada de transição ao espaço exterior.

E nos dias seguintes, semanas seguintes e meses seguintes a essa data, essa “pilha de mortos” – resultante, em grande parte, de ações negacionistas de Bolsonaro e de seus seguidores, com a ampla conivência das elites brasileiras e de autoridades públicas que democraticamente poderiam tê-lo contido para evitar essa tragédia anunciada – atingiu a uma altura, cuja distância, ultrapassando completamente a atmosfera de nosso planeta, distende-se pelo espaço exterior.

Para os que afirmam que não é a quantidade de mortos o que define o correto emprego do termo genocídio mas o propósito da ação que a ela conduz, cabe lembrar que a solução final adotada por Bolsonaro para alcançar a imunidade de rebanho, era permitir o contágio massivo de 70% da população brasileira, realizando-se para tanto o “isolamento vertical” – em que os idosos e pessoas que estariam no “grupo de risco” ficariam em casa e os demais deveriam circular normalmente, expondo-se ao contágio do coronavírus no exercício quotidiano de suas atividades. Negando e combatendo as providências adotadas por governadores e prefeitos que buscavam conter a propagação do vírus, o presidente afirmou: “O governo federal, se depender de nós, está tudo aberto com isolamento vertical e ponto final.” [8]

Desconsiderando a distinção entre hipóteses científicas e teses cientificamente comprovadas – requerendo estas um amplo consenso, validamente alcançado, no seio da comunidade científica mediante a verificação ou o falseamento das hipóteses investigadas, com o emprego dos métodos, instrumentos e procedimentos adequados a cada ciência –, o bolsonarismo reproduziu argumentos hipotéticos de epidemiologistas divergentes da comunidade científica, como se verdades científicas fossem, levando milhares de pessoas à morte no Brasil. Segundo a hipótese formulada por eles, a Covid-19 não seria “[…] tão devastadora para a população em geral e, por isso, seria possível contê-la sem enfrentar as massivas perdas econômicas que o atual modelo de contenção pode causar.”[9] E, como noticiou a BBC em março de 2020, essa estratégia de isolamento vertical “[…] ganhou ao menos dois proeminentes adeptos […]: o presidente americano, Donald Trump, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.” [10] Ela também foi adotada inicialmente no Reino Unido por Boris Johnson. [11]

Em 9 de abril de 2020, quando ainda não havia mil mortos no país em razão do coronavírus, alertei que poderíamos chegar de 1,5 a 1,7 milhão de óbitos por Covid-19 – número superior ao estimado por pesquisadores do Imperial College London [12] –, se a política de imunização de rebanho por contágio do vírus, iniciada no período da gestão do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, fosse levada adiante e o coronavírus se propagasse pelo conjunto da população brasileira. [13]

Segundo Mandetta, em sua entrevista coletiva de 22 de março de 2020, metade da população brasileira seria infectada pelo coronavírus: “da metade que vai entrar em contato [com o vírus] mais da metade não vai nem ter sintoma, vai simplesmente desenvolver o anticorpo […]. E a grande maioria dos que vão ter sintomas, terão sintomas leves. E, depois, uma minoria vai necessitar de internação hospitalar. Se ocorresse ao longo do ano, seria uma gripe forte e uma epidemia para idosos.”[14] Tratando a Covid-19 como uma gripe forte para a maioria, o ministro da Saúde afirmou, em 16 de abril, nas palavras da imprensa, que “[…] quando cerca de metade da população for infectada pelo novo coronavírus, as ações do governo mudarão.”[15] Assim, não apenas a infecção de metade da população era esperada no plano de atuação do governo federal, mas já se previam mudanças para a ação governamental após essa marca ser alcançada.

À época, Paulo Guedes falava inclusive da emissão de um “Passaporte de Imunidade” para os que, após contraírem a doença, testassem positivo para os anticorpos do coronavírus: “Você fez o teste, você está positivo, você pode circular. Você está negativo, você tem que ir para casa. […] Veja bem, isso não é agora. Agora, a gente está em isolamento. É para a gente sair lá na frente, do período de isolamento”. [16]

Ora, como alguém poderia testar positivo para anticorpos do coronavírus sem ter sido vacinado, posto que nesse momento nem vacinas aprovadas para utilização pública existiam? Somente sendo infectado pelo próprio vírus. E esse era o objetivo do “isolamento vertical”, que manteria a economia funcionando normalmente.

Mas, em seu argumento, Paulo Guedes pareceu desconsiderar um subgrupo que testaria positivo para os anticorpos do coronavírus e que alcançaria pouco menos de 1% do total dos infectados, conforme os estudos então existentes: o grupo das pessoas que não sobreviveria à doença. Nesse caso, objetivamente, em vez delas receberem um “Passaporte de Imunidade”, seria entregue a seus familiares um “Atestado de Óbito”. E, quando metade da população brasileira testasse positivo para os anticorpos do coronavírus, por haver sido infectado por ele, teríamos aproximadamente 1 milhão de mortes por Covid-19 no Brasil.

Um ano se passou e, como consequência dessa política premeditada de alcançar o mais rapidamente possível a imunidade de rebanho”, o país totalizará oficialmente, ao final das próximas seis ou sete semanas, mais de meio milhão de mortes registradas por Covid-19 ao longo da pandemia e chegaremos, aproximadamente, a um terço do número total de óbitos que estimei como resultado previsto dessa política desastrosa.

A maior parte dos esforços feitos, até aqui, para evitar essa tragédia anunciada, foi duramente combatida por Bolsonaro ou por seus seguidores negacionistas: 1) impedindo que governadores fizessem o bloqueio sanitário no interior dos aeroportos; 2) vetando o uso obrigatório de máscaras em locais públicos; 3) não realizando testagens massivas que ajudariam a conter a propagação do vírus; 4) ocasionando e promovendo aglomerações que facilitaram a propagação da pandemia; 5) incentivando a invasão de hospitais de campanha para denunciar que estariam subocupados; 6) alimentando a hostilização de profissionais de saúde que reivindicavam equipamentos e condições de segurança satisfatórias para realizar seu trabalho e atender adequadamente os pacientes; 7) combatendo abertamente o lockdown e medidas de isolamento social; 8) recusando ofertas antecipadas de milhões de doses de vacinas; 9) insultando, por várias vezes e pelas vozes de diferentes autoridades públicas, o país que exporta as matérias-primas de que necessitamos para produzir vacinas em solo nacional, chegando Paulo Guedes a afirmar que “os chineses inventaram o vírus”; 10) retardando a entrada do Brasil na aliança global de vacinas Covax Facilty e, ao nela ingressar, optando pela cobertura mínima de apenas 10% da população em vez de optar pelo recebimento de doses de vacina para 50% da população; 11) votando na OMC contra a suspensão de patentes das vacinas para o Coronavírus, o que permitiria barateá-las ao ampliar rapidamente a sua produção global e o volume de doses disponíveis no mundo todo; 12) induzindo as pessoas, por meio de “lives” e de redes sociais, a adotarem comportamentos que contribuíram para elevar o número de mortes por Covid-19 no país; 13) incentivando e criando protocolos ou orientações para o uso de medicamentos sem recomendação científica na prevenção ou no tratamento da Covid-19, tais como hidroxicloroquina e ivermectina, entre outros; 14) importando insumos para a fabricação pelo Exército de milhões de comprimidos de cloroquina, que não apenas são ineficazes para o tratamento da Covid-19 como ampliam o risco de óbito por infarto das pessoas que contraiam essa doença.

Por todas essas ações e pelas consequências delas derivadas, que resultaram na morte de centenas de milhares de pessoas – mortes que poderiam ter sido evitadas –, a palavra genocídio, em sentido lato de genus, que corresponde a povo, e de cídio que corresponde a morte, poderia ser bem aplicada aqui, tratando-se do genocídio de uma parcela do povo brasileiro. Em seu negacionismo, o presidente afirmou que o coronavírus, como uma chuva, molharia 70% do povo brasileiro, mas que apenas idosos e pessoas de grupos de risco teriam problemas mais sérios: “Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. Toda a nação vai ficar livre da pandemia quando 70% for infectada e conseguir os anticorpos.” [17] Em outra ocasião reafirmou: “70% (da população) vai pegar o vírus, não tem como”.[18] Mas para evitar o colapso do sistema de saúde, o ritmo de infecção do povo deveria ser mais lento: “Em vez de uma parte da população ser infectada num período de dois, três meses, que seja entre seis, sete, oito meses” [19]. E, em 2 de junho de 2020, sentenciou claramente: “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo[…]. O vírus é uma coisa que vai pegar em todo mundo”[20].

Assim, pode-se afirmar que a adoção de medidas preconizadas por Bolsonaro para o maior desembaraço possível à livre propagação nacional do coronavírus, com o objetivo de gerar rapidamente a imunidade de rebanho no país pela infecção de 70% da população e, com isso, evitar o agravamento da crise econômica, não importando o número de mortes por Covid-19 que tais medidas provocariam, caracteriza claramente um crime hediondo, pois resultou de fato na morte de centenas de milhares de pessoas – mortes que poderiam ter sido evitadas, se medidas de prevenção do contágio tivessem sido adotadas nacionalmene de maneira coordenada.

E, pela proporção massiva de óbitos de brasileiros e brasileiras que foram impactados por tais medidas premeditadas, que assumiam como certo que o coronavírus iria “pegar em todo mundo, pode-se afirmar que se trata mesmo de um tipo particular de genocídio, em que “todo mundo” acabaria exposto à infecção pelo vírus, sabendo-se de antemão que uma parte das pessoas infectadascomposta por doentes crônicos, com deficiência cardíaca e pulmonar, ou por membros de grupos étnicos e sociais mais vulneráveis ao vírus, como indígenas ou populações pobres que vivem em condições insalubres e precárias – necessariamente morreria.

Mas essa “pilha de mortos” – que, em sua extensão, ultrapassou o equivalente à altura da exosfera de nosso planeta e alcançou o espaço exterior – não pode ser tratada como algo banal pela Justiça do Brasil e pelas Cortes Internacionais. Bolsonaro e seus cúmplices, em suas cadeias de comando, têm de ser julgados pelos crimes que tenham cometido com respeito aos fatos aqui narrados.

Estudos científicos apontavam esses possíveis impactos desde o início da pandemia. E tanto o presidente quanto os seus comandados e seguidores sabiam, que de suas ações e omissões, essa tragédia de centenas de milhares de mortos poderia resultar. O estudo, já mencionado anteriormente, de uma equipe de pesquisadores do Imperial College London, por exemplo, indicou que com a adoção de medidas adequadas, envolvendo o conjunto da população, para conter e suprimir a propagação do coronavírus no país, o número de mortos no Brasil por Covid-19 chegaria aproximadamente a 44 mil e que, sem nenhuma estratégia de isolamento e de enfrentamento da propagação do coronavírus, deixando-o circular livremente, esse número poderia alcançar a marca de 1.152.283 óbitos. [21] Após a publicação de outro estudo similar, mostrando que até 250 mil pessoas poderiam morrer de Covid-19 no Reino Unido, “a estratégia do governo britânico mudou, abandonando a imunização de rebanho’ ”. [22]. Esses estudos, entretanto, bem acolhidos pela maioria da comunidade científica, foram ideologicamente combatidos no Brasil na realimentação negacionista do bolsonarismo.

Posiciono-me, pois, entre aqueles e aquelas que clamam por justiça para seus familiares e amigos, cujas vidas foram perdidas para a Covid-19, em situações fortemente agravadas pelas políticas, ações e omissões do governo federal brasileiro e pelo vazio de pensamento, superficialidade, irreflexão e insensatez dos apoiadores e seguidores dessas medidas, aglutinados em torno de seu líder negacionista maior, Jair Messias Bolsonaro.

Notas

1 Abordando as noções de genocídio e massacre administrativo, afirma Arendt (2006, p.232): “For the concept of genocide, introduced explicitly to cover a crime unknown before, although applicable up to a point is not fully adequate, for the simple reason that massacres of whole peoples are not unprecedented. They were the order of the day in antiquity, and the centuries of colonization and imperialism provide plenty of examples of more or less successful attempts of that sort. The expression ‘administrative massacres’ seems better to fill the bill. […] The phrase has the virtue of dispelling the prejudice that such monstrous acts can be committed only against a foreign nation or a different race. There is the well-known fact that Hitler began his mass murders by granting ‘mercy deaths’ to the ‘incurably ill’, and that he intended to wind up his extermination program by doing away with ‘genetically damaged’ Germans (heart and lung patients). But quite aside from that, it is apparent that this sort of killing can be directed against any given group, that is, that the principle of selection is dependent only upon circumstantial factors.”

2 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Sobre o emprego da expressão banalidade do mal, assim afirma Arendt: “when I speak of the banality of evil, I do so only on the strictly factual level, pointing to a phenomenon which stared one in the face at the trial.” (ARENDT, 2006, p.231) E sobre a atitude de Eichmann, mantida inclusive ante a sua própria execução, posto que fora condenado à forca, Arendt destaca: “That such remoteness from reality and such thoughtlessness can wreak more havoc than all the evil instincts taken together which, perhaps, are inherent in man – that was, in fact, the lesson one could learn in Jerusalem. But it was a lesson, neither an explanation of the phenomenon nor a theory about it”. (ARENDT, 2006, p.232)

3 STRUCK, Jean-Philip. Caos, omissão e explosão de mortes: o legado de Pazuello na Saúde. 16.03.2021. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/caos-omissão-e-explosão-de-mortes-o-legado-de-pazuello-na-saúde/a-56890646. Acesso em: 15/05/2021

4 UOL. Weintraub nega ser racista e minimiza quantidade de mortos por coronavírus. 16/04/2020. Disponível em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/16/weintraub-nega-ser-racista-e-minimiza-quantidade-de-mortos-por-coronavirus.htm. Acesso em: 15/05/2021

5 Referindo-se à incapacidade de Eichemann de pensar a partir dos outros, Arendt afirma: “The longer one listened to him, the more obvious it became that his inability to speak was closely connected with an inability to think, namely, to think from the standpoint of somebody else. No communication was possible with him, not because he lied but because he was surrounded by the most reliable of all safeguards against the words and the presence of others, and hence against reality as such.” (ARENDT, 2006, p. 55)

6 A fonte de dados é: Our World in Data. Coronavirus (COVID-19) Deaths. Disponível em: https://ourworldindata.org/covid-deaths. Acesso em: 15/05/2021

7 PENA, Rodolfo F. Alves. Camadas da Atmosfera. Disponível em https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/camadas-atmosfera.htm. Acesso em: 15/05/2021

FERNANDES, Augusto. Bolsonaro defende isolamento vertical e diz que quer “abrir tudo”. 14/05/2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/14/interna_politica,854859/bolsonaro-defende-isolamento-vertical-e-diz-que-quer-abrir-tudo.shtml. Acesso em: 16/05/2021

9 SANCHES, Mariana. O que é o isolamento vertical que Bolsonaro quer e por que especialistas temem que cause mais mortes? 25 mar 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52043112. Acesso em: 16/05/2021

10 SANCHES (2020, n.p.)

11 OSWALD, Vivian. Cientistas criticam Boris Johnson por estratégia contra coronavírus que evita quarentena e não restringe aglomerações. 15/03/2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/cientistas-criticam-boris-johnson-por-estrategia-contra-coronavirus-que-evita-quarentena-nao-restringe-aglomeracoes-24306531. Acesso em: 16/05/2021

12 MANCE, Euclides. Coronavírus: o Brasil avança para uma tragédia ainda maior. 09/04/2020. Disponível em: http://euclidesmance.net/wp/index.php/2020/04/09/coronavirus-o-brasil-avanca-para-uma-tragedia-ainda-maior/ Acesso em 15/05/2021

13 RODRIGUES, Eduardo. Mandetta: quando chegar em 50% das pessoas infectadas ritmo vai diminuir. UOL, 22/03/2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/03/22/mandetta-quando-chegar-em-50-das-pessoas-infectadas-ritmo-vai-diminuir.htm> Acesso em: 26/03/2020

14 RECORD NEWS. Metade da população será contaminada pelo novo coronavírus, diz Mandetta. 22/03/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=U_wEJKX2lWg. Acesso em: 18/05/2021

15 AGOSTINE, Cristiane; VIEIRA, André Guilher. Mandetta: Temos perspectiva de troca; hoje, o mais tardar amanhã. 16/04/2020. Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/04/16/mandetta-temos-perspectiva-de-troca-hoje-o-mais-tardar-amanha.ghtml. Acesso em:18/05/2021

16 ESTADÃO CONTEÚDO. Guedes sugere “passaporte de imunidade” para reabertura econômica – Segundo ministro, pessoas que tenham a imunidade ao novo coronavírus confirmada poderiam trabalhar normalmente numa segunda fase da pandemia. 04/04/2020. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/economia/guedes-sugere-passaporte-de-imunidade-para-reabertura-economica/ Acesso em: 15/05/2021

17 ANDRADE, Hanrrikson de. Bolsonaro compara coronavírus a chuva: “Vai molhar 70% de vocês”. 03/04/2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/03/bolsonaro-compara-coronavirus-chuva.htm. Acesso em: 15/05/2021

18 ESTEVES, Eduarda. Veja cem momentos em que Jair Bolsonaro minimizou a Covid-19. 08/08/2020. Disponível em: https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2020-08-08/veja-cem-momentos-em-que-jair-bolsonaro-minimizou-a-covid-19.html. Acesso em: 15/05/2021

19ESTEVES, 2020, n.p.

20G1. ‘É o destino de todo mundo’, afirma Bolsonaro após lamentar mortes por coronavírus.02/06/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/02/e-o-destino-de-todo-mundo-afirma-bolsonaro-apos-lamentar-mortes-por-coronavirus.ghtml. Acesso em: 18/05/2021

21 WALKER, Patrick; WHITTAKER, Charles; WATSONET, Oliver et al. Datos suplementarios. In: The Global Impact of COVID-19 and Strategies for Mitigation and Suppression. Imperial College London (2020). Disponível em: https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-Global-unmitigated-mitigated-suppression-scenarios.xlsx. Acesso em: 16/05/2021

22 G1. Sem isolamento e ações contra a Covid-19, Brasil pode ter até 1 milhão de mortes na pandemia, diz estudo. 27/03/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/27/sem-isolamento-e-acoes-contra-a-covid-19-brasil-pode-ter-ate-1-milhao-de-mortes-na-pandemia-diz-estudo.ghtml. Acesso em 18/05/2021

Referências Citadas

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